26 de março de 2008

Fuga de Shermer: uma pequena divagação sobre Curtindo a Vida Adoidado


Shermer nada mais é do que o universo criado por John Hughes. Além de ser o local em que se passam os filmes do seu “ciclo adolescente”, é um lugar que reflete a realidade de uma determinada época (os Estados Unidos da Era Reagan) e, ao mesmo tempo, tem suas leis da física próprias (como é mostrado em Mulher Nota Mil).

Em Curtindo a Vida Adoidado, pela primeira vez os personagens saem de Shermer para se aventurar por entre os arranha-céus de Chicago. É interessante perceber que tal ato só acontece quando um personagem resolve burlar o sistema e sair da rotina de um jovem morador de Shermer, para curtir a vida adoidado no centro da cidade. O lugar de adolescente é lá, criando mulheres por computador (Mulher Nota Mil), sonhando com o cara ideal (Gatinhas e Gatões), ficando de castigo na escola no sábado (O Clube dos Cinco). O lugar de adultos é no centro de Chicago, visitando museus, indo a restaurantes caros, trabalhando na bolsa de valores, vendo um jogo de beisebol. E são estas as atividades que Ferris Bueller, protagonista do filme, procura fazer quando decide gazear a aula e ir ao centro. Curiosa inversão de papéis, vale destacar.

A primeira coisa que se ouve em Curtindo a Vida Adoidado já prenuncia esta partida (temporária, claro) do adolescente de Shermer : a voz de um locutor de rádio, ainda em tela preta, anuncia: “It´s a beautiful day in Chicago” (o que parece nada mais que um convite). Logo em seguida, entra em fade in a imagem de um plano geral da casa de Ferris Bueller. Casa bastante parecida com a de Samantha Baker de Gatinhas e Gatões (e parecida com a da maioria dos norte-americanos de classe média dos anos 80).

Algumas peripécias depois, e Ferris está em uma Ferrari junto com a namorada e o melhor amigo, rumo à “Big City”, como diz a letra da música alegre que toca no momento. Hughes mostra com prazer (dele e dos personagens) a saída (vale ressaltar outra vez, apenas momentânea) do subúrbio. Os vários planos que se seguem do centro de Chicago, feitos em travellings aéreos, ao som da música alegre, são como um vídeo feito por uma agência de turismo para divulgar as belezas de determinada metrópole.

A ode a cidade continua: a primeira coisa que fazem depois de deixar o carro no estacionamento é subir no prédio mais alto de Chicago para ver, da maneira mais ampla possível, a cidade. Depois, vão ao Chicago Art Museum, onde se encontram pinturas de Picasso, Hopper, Matisse, etc.

Mais algumas aventuras e os três acabam em uma “parada germânica”, onde as ruas da metrópole estão ocupadas de gente. Música, alegria, celebração: estar na cidade grande é uma enorme festa, é uma curtição. Após todo este passeio pelo mundo dos adultos, Ferris volta para o subúrbio. A cidade é deslumbrante, mas só das 9 às 5. O lugar do adolescente é em Shermer.