7 de abril de 2008

Desconstruindo Harry, de Woody Allen


A seqüência dos créditos iniciais de Desconstruindo Harry já mostra que estamos diante de um Woody Allen um pouco incomum. Só um pouco, afinal Woody Allen é Woody Allen, e sua preguiça na decupagem é uma virtude. Na sequência inicial, ao som de um tradicional jazz que embala todas as sequências de créditos dos filmes de Woody Allen, vemos o mesmo plano de uma mulher saindo de um táxi várias vezes. É um plano bem simples, mas os muitos jump cuts, que voltam e avançam no tempo, já causam um estranhamento inicial.

O filme se divide entre a história do personagem principal Harry, um escritor com bloqueio criativo (Woody Allen interpretando Woody Allen, como sempre); e entre a encenação de alguns contos de Harry, que dizem muito sobre o personagem.

Enquanto os curtos contos são filmados com uma forma narrativa clássica, a vida de Harry é lotada de jump cuts. A montagem de Susan E. Morse (editora da grande maioria dos filmes de Allen dos anos 80 e 90) leva a desconstrução do personagem, do título do filme, ao pé da letra. Assim como na sequência inicial, o filme segue cheio de cortes em cima dos mesmos planos. São cortes no meio de diálogos, no meio de movimentos de zoom, planos que duram apenas alguns frames. Essa montagem causa um estranhamento, que condiz muito com o momento da vida pessoal do protagonista.

A encenação narrativa dos contos de Harry, por sua vez, é um espaço para Woody Allen mostrar sua constante criatividade e genialidade. Além de ser uma interessante tentativa de compreender o personagem principal e, conseqüentemente, de Woody Allen tentar se compreender, os contos guardam algumas das mais engraçadas anedotas da carreira do diretor. Cada um deve ter seu conto preferido, no meu caso a história do ator que está fora de foco é simplesmente impagável.

Na parte final, Desconstruindo Harry vira, mais que uma referência clara, uma homenagem a obra-prima Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (por sinal, cineasta preferido de Allen). Em um salão, Harry se vê de frente a todos os personagens do filme, sejam eles “reais” ou apenas fruto de sua imaginação. Bela cena.