17 de abril de 2008

Paranoid Park, de Gus Van Sant

Paranoid Park é um filme de pequenos gestos, de olhares, de uma certa indiferença com o mundo. Classificá-lo como bressoniano é uma tentação, mas fazê-lo seria cair em uma armadilha.

Se a atuação “desdramatizada” do protagonista deste longa-metragem de Gus Van Sant até lembra a dos modelos utilizados pelo diretor de Pick Pocket, as constantes intervenções musicais logo o afastam de Bresson.

A recusa da fragmentação do mundo causada pela montagem, já há algum tempo recorrente em Van Sant, que de certo agradaria Bazin, e todo o “realismo” trazido por este recurso, convive com estratégias formais, como o uso da câmera lenta. Paranoid Park não se afilia diretamente a uma teoria ou estilo, o que o torna um filme bastante curioso e que vai bem além da discussão do abuso do slow motion apenas como justificativa para a construção de um discurso “artístico” (por mais que, sem dúvida, isto seja verdade).

O que se vê aqui é, além deste hibridismo, um cineasta em plena sintonia com objeto de seu filme, os adolescentes. Van Sant não os bajula, nem os utiliza para se chegar ao papo besta do tipo “viu só, usar drogas e transar feito um louco só lhes causarão problemas”, como Christiane F., Kids e Aos 13, por exemplo, fazem sem nenhuma vergonha. O diretor está interessado nas pequenas coisas e não nos grandes dramas, comuns nos filmes (que não são comédias) com adolescentes.

Nas mãos de um medíocre, o romance de Blake Nelson seria transformado em um thriller repleto de suspense, um pouquinho de sexo, e várias piadas (a maioria envolvendo escatologias). Com Van Sant temos um anti-thriller, com um pouquinho de sexo e pouquíssimas piadas.

Alex, o protagonista da história cometeu um crime. Nem por isso ele será castigado, fazendo com que o público receba de forma descarada uma lição de moral. A namorada dele quer muito transar. Mas, e daí? Ele não tem tanta vontade assim. Seus pais se separaram. Ora, isso não é motivo para que ele se rebele contra o mundo.

Ou seja, várias coisas acontecem, não só na vida de Alex, como, obviamente, no mundo (A guerra do Iraque? “eu não gosto muito de ler sobre guerras nos jornais", diz o jovem em determinado momento). Mas, o que interessa mesmo para ele é o skate (como deixa claro o último plano, belíssimo, em câmera lenta, do filme). Isso faz dele um alienado? Talvez. Ou, quem sabe isto faça dele um adolescente. Simplesmente um adolescente.