Para meu texto sobre Babel no último Duelo de Críticas citei James Gray. A frase foi tirada de um post do blog do Luiz Carlos Merten. Copiando um trecho deste post específico do Merten, abre aspas: “James Gray diz que parece estar fazendo sempre o mesmo filme, para falar de família, pais e filhos, irmãos e irmãos. Mas, como ele diz, o problema não é repetir, é progredir. Os filmes têm de avançar, internamente. Em Cannes, este ano, ele disse que gosta muito de Fellini. Comparou Os Boas Vidas e Amarcord e acrescentou que esse é o tipo de progressão autoral que o fascina.” Sábio este moço James Gray.
Quando escrevi sobre Os Donos da Noite para este blog, no fim do ano passado, ainda não havia visto os dois primeiros trabalhos de Gray. A semelhança de temas entre Fuga Para Odessa, Caminho Sem Volta e o filme mais genial lançado nos cinemas brasileiros no ano passado, ou seja Os Donos da Noite, é tremenda (e esse adjetivo é apenas uma homenagem a Erasmo Carlos). São todos grandes épicos familiares, quase óperas, que envolvem crimes, e tem uma parecida estrutura de roteiro. As famílias dos protagonistas de Fuga Para Odessa e Caminho Sem Volta, por exemplo são muito parecidas e moram em casas quase idênticas. A tal progressão autoral que Gray cita, quando fala sobre Fellini, é notável na filmografia do próprio James Gray. Apesar de tratar de temas parecidos, ou até iguais, a abordagem desse tema se mostra maior e mais complexa a cada filme. Os Donos da Noite exala uma grandiosidade que Fuga Para Odessa ainda não tem. Sem desmerecer Fuga Para Odessa, uma quase obra-prima, que possui na sua direção uma jovialidade e até uma ingenuidade (no bom sentido) por parte do diretor, claramente cinéfilo.
Só não digo que James Gray é o melhor diretor americano surgido nos anos 90, porque existe um cara chamado Paul Thomas Anderson. Que Quentin Tarantino, que nada!
Escrevendo um texto em sala de aula para um trabalho de faculdade notei que há uma certa semelhança, em termos de estrutura de roteiro, entre Os Donos da Noite e O Homem Errado, aquele pequeno grande filme de Hitchcock. Em ambos os filmes, após uma introdução dos personagens, os protagonistas são submetidos a situações impostas por motivos externos, que fogem ao seu controle. A partir daí, os filmes se estruturam nestes conflitos impostos aos protagonistas. As duas obras compartilham ainda de um falso final feliz. Os conflitos são superados, mas não sem as conseqüências dolorosas, sofridas tanto pelo protagonista como, principalmente, pelas pessoas que o cercam. A maior diferença entre esses dois filmes consiste apenas na índole de seus protagonistas. O personagem de Henry Fonda em O Homem Errado era essencialmente bom, trabalhador e pai, ainda que sem muito sucesso (isto é, sem muito dinheiro), já a vida cotidiana do personagem de Joaquin Phoenix envolve, ainda que não diretamente, drogas e sexo, além de sua boate ser um negócio um tanto ilícito. É essa parcela de culpa e dualidade na personagem de Phoenix que faz de Os Donos da Noite o grande filme que este é. Sem desmerecer Hitchcock, cujo O Homem Errado é um dos meus preferidos.
O parágrafo anterior na verdade não tem muito a ver com a questão x deste texto, voltemos a ela. Esse texto começou por causa de Alejandro González Iñarritu. Confesso que até gosto de seus três filmes, especialmente de 21 Gramas, com aquele excepcional trio de protagonistas: Benicio Del Toro, Naomi Watts e Sean Penn. Mas a verdade é cada filme de Iñarritu se enfraquece pela simples existência dos outros dois. Iñarritu e Guillermo Arriaga, porque o roteirista aqui também tem sua parcela de culpa, descobriram uma fórmula que deu certo e simplesmente a repetem nos três filmes. Viu um, viu todos. A câmera “nervosa” e o cruzamento dos personagens que despertou um certo interesse na época de lançamento de Amores Brutos, em Babel se mostram apenas cacoetes irritantes, dessa vez aliada ainda a uma infeliz trilha sonora.

Revi recentemente uns trechos do primeiro filme de Iñarritu e visto hoje, apenas 8 anos depois de seu lançamento, Amores Brutos já se mostra muito ultrapassado, seja por sua estética já muito copiada, seja pelos outros dois filmes do diretor, iguais a esse. A idéias de progressão autoral inexiste na obra de Iñarritu, que acaba por fazer a mesma coisa sempre.
Em Babel o que mais incomoda é necessidade das histórias contadas terem alguma ligação. È como se as histórias não se sustentassem por elas mesmas, e fosse preciso alguma coincidência na trama para justificar a inclusão delas. Iñarritu tem a pretensão de deixar seu filme mais grandioso, ambientando-o em vários continentes, mas só consegue deixar seu Babel mais bobo. A necessidade com que a vida da garotinha no Japão, ou da empregada no México, precisam ter com o tal “acidente” em Marrocos chega a ser constrangedora. Fica a impressão de que o incidente em Marrocos só existe porque a tal fórmula da dupla Iñarritu/Arriaga precisa de um acidente. Todd Haynes em Veneno já mostrou que histórias paralelas não precisam ter uma óbvia ligação para estarem no mesmo filme. Mesmo Maria, mais recente filme de Abel Ferrara, faz um inteligente uso de histórias paralelas, sem a necessidade de explicitar a ligação dessas histórias de maneira besta em algum momento do filme. Esses dois exemplos demonstram que não é preciso ser bobo pra contar histórias paralelas.
Chegamos então a Gus Van Sant e seu Paranoid Park, visto no último domingo numa sessão do Cine Luz, cinema de rua curitibano que precisa urgentemente de ar condicionado e um projetor novo. James Gray e Iñarritu tem apenas três filmes em seu currículo. Pode-se dizer que o Gus Van Sant de Paranoid Park também, já que nem parece que estamos diante do mesmo diretor de Gênio Indomável e daquela besteira que é o remake de Psicose. Gus Van Sant continua com Paranoid Park um cinema autoral seu, único, que teve seu início com Elefante e se seguiu depois com Os Últimos Dias.
Nestes três filmes, Gus Van Sant lança seu olhar sobre a juventude americana. Acima de tudo, são filmes que se interessam por personagens.
Em Paranoid Park, as várias cenas em câmera lenta com diferentes trilhas ao fundo, além de soarem como encheção de lingüiça para que o filme tenha seus 90 minutos de duração, parecem existir apenas para justificar o filme como “arte”. Com esta ressalva, estamos diante de um filme que, com a mesma estrutura e estética de Elefante e Os Últimos Dias, tenta ir ainda mais fundo no retrato do jovem americano. É tal progressão autoral da qual este texto trata. O protagonista de Paranoid Park tem vários problemas, seja o divórcio dos pais ou a pressão para fazer sexo com a namorada (a cena de sexo entre os dois é a melhor, e uma das poucas boas, cena em câmera lenta do filme). Ele também matou por acidente um homem nos trilhos de trem, e este é apenas mais um problema seu. Talvez o mais fácil de ser resolvido.
Em meio a jovens andando e câmera lenta com trilha italiana, o que realmente me atrai neste cinema de Gus Van Sant é o quanto seus jovens americanos parecem reais. Dos seus três filmes, acho Elefante o melhor, talvez pelo assunto retratado (a matança nas escolas), que me chama mais a atenção. Mas é em cenas, improvisadas ou não, como a do vendedor de anúncio de lista telefônica em Os Últimos Dias, ou do irmão mais novo descrevendo algumas cenas de Napoleon Dynamite em Paranoid Park, que o diretor mostra sua genialidade. Por que será ninguém consegue filmar a juventude com a competência que Van Sant filma? Gosh!

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