12 de abril de 2008

Shine a Light, de Martin Scorsese


Desde o início deste blog, um dos principais motivos de sua existência é a idéia de um espaço para o confronto de opiniões. Visões diferentes de uma mesma obra são sempre bem-vindas, e o recém-criado Duelo de Críticas surgiu justamente dessa, digamos, necessidade de se ver uma mesma obra por diferentes pontos de vista. Afinal, no cinema, e até mesmo na vida, a opinião sobre uma obra não é, nunca, definitiva.

Portanto, depois dessa introdução onde tentei colocar algumas frases bonitas e nem sei direito muito bem o que escrevi, cá estou para defender Shine A Light, filme que foi um tanto criticado no último texto publicado neste blog, por Wellington Sari. Mas convenhamos, você confiaria na opinião desse cara sabendo que ele não gosta de Exile on Main Street, disco genial dos Stones? Eu não. Mas não vamos partir para gostos pessoais, e falemos mais precisamente do filme.

Wellington Sari ainda diz que não faria muita diferença se este filme fosse dirigido por Zé Elias ou Doriva. Não poderia estar mais errado. Até mesmo se fosse Axel, aquele ex-volante do São Paulo, que dirigisse este documentário, o resultado seria bem diferente. É só comparar Shine a Light, com qualquer outro dvd de qualquer outro show dos Rolling Stones para perceber que há uma grande diferença. Há em Shine a Light uma proposta, e está estampado nos créditos iniciais que este é um “a Martin Scorsese Picture”.

No começo do filme, arrisca-se armar um conflito entre Martin Scorsese e Mick Jagger. Os dois tem idéias distintas sobre o que seria este projeto.Enquanto Jagger queria um documentário sobre a turnê dos Stones, com direito a shows com centenas de milhares de pessoas, a céu aberto em Copacabana, etc. Scorsese preferiu algo “menor”, levou os Stones a um teatro fechado e buscou simplesmente um documento da música da banda, e da energia que esses sessentões tem no palco..

Interessante que o conflito inicial entre Scorsese e Jagger, contado de forma até muito bem-humorada por parte do diretor, é deixado completamente de lado logo que começa o primeiro riff de Jumping Jack Flash. Tal qual a câmera que entra no ringue de Touro Indomável, e só vai sair do ringue após o final da luta de Jake de la Motta, assim que começa o show dos Stones, as câmeras de Shine a Light apontam somente para o palco, e durante as quase duas horas de rock and roll, não importa mais qualquer conflito que exista entre Scorsese, ou Jagger, ou até mesmo Carlos Miguel (já que estamos citando ex-volantes, esse era daquele grandioso time do Grêmio que ganhou a Libertadores em 95). Assim que o show começa, o que importa é a música. E as imagens.

Temos então um pequeno grande show dos Stones, com muitos hits, e algumas escolhas de músicas bizarras. Além de um show de músicas, também um show de imagens. Muita luz pra tudo quanto é lado, tanto que nos minutos iniciais Scorsese, com o bom humor que lhe é peculiar, fica até com receio de que Mick Jagger entre em chamas. Por sorte, isso não acontece. Contando com os nomes de Robert Elswitt, Emmanuel Lubezki, entre outros grandes fotógrafos, como “meros” operadores de câmera, a fotografia assinada por Robert Richardson é obcecada por seus protagonistas, abusa do focar e desfocar, e não larga os rostos dos Stones por um segundo.

Scorsese quer as rugas dos Stones estampadas na tela, em cada plano. Como qualquer um, o diretor se impressiona com esses velhos que ainda fazem shows muito mais energéticos que muitos jovens que existem por aí. Os inserts das antigas entrevistas dos Stones, entre algumas músicas, servem justamente para mostrar que Rock and Roll não tem idade.Assim como é genial ver que Jack White com seu sorriso não consegue esconder a felicidade de tocar com os Stones, impressiona também ver o número de patricinhas da platéia que ainda querem dar para Mick Jagger, ou mesmo a bela encoxada que o líder da banda dá em Christina Aguilera. Scorsese, como grande fã da banda, fez o registro de uns monstros sagrados do Rock. Por mais críticas que eles ainda recebam, os Rolling Stones de hoje é algo nada menos do que impressionante.