12 de março de 2008

Sweeney Todd e uma breve viagem pela filmografia de Tim Burton - Parte 2


O filme de Burton com o qual Sweeney Todd mais se assemelha é provavelmente Edward Mãos de Tesoura, quarto longa-metragem do diretor. O cômodo no qual o barbeiro reside é muito semelhante ao sótão do castelo de Edward, e além do clima pessimista, que é um tanto sutil em Edward Mãos de Tesoura e escancarado em Sweeney Todd, Burton chega até a referenciar Edward Mãos de Tesoura em alguns planos do duelo de barbear entre Sweeney Todd e o Signor Pirelli (interpretado por Sacha Baron Cohen, com resquícios de Borat). Outra semelhança entre os filmes é Johnny Depp, cujo rosto é mais uma das tantas marcas da filmografia de Burton.

Se na primeira parte desse texto fiz uma breve análise pela mutação da carreira de Tim Burton a partir do caráter de seus personagens principais, podemos também ver essa mutação a partir dos sorrisos dos personagens interpretados por Johnny Depp.

Em uma cena de Edward Mãos de Tesoura, os habitantes daquela bizarra cidade (que, apesar das cores, é muito mais bizarra e triste que o castelo de Edward) tentam ensinar Edward a sorrir. Edward é uma pessoa boa, mas vive triste atrás de suas cicatrizes e sua palidez, e esse ensinar a sorrir serve como crítica a uma sociedade onde as pessoas são falsas e, por muitas vezes, precisam fingir uma felicidade. Felicidade essa que, a princípio, não existe no personagem de Edward. Em Ed Wood, o pior diretor todos os tempos é feliz por amar o cinema, e utiliza seu sorriso para tentar dinheiro para os seus filmes ou contar suas idéias absurdas para os outros. É um sorriso inocente e sem senso do ridículo, que vai se apagando e perdendo sua graça no decorrer do filme. Temos então Willy Wonka, personagem do qual já falei bastante. Wonka tem um sorriso psicótico, mas contido, onde esconde a tristeza da relação com seu pai, que é explicitada em um belo flashback. E chegamos enfim a Sweeney Todd, onde o personagem principal simplesmente não sorri, não há alegria em sua vida. Pelo menos, não no presente. É um barbeiro triste, somente.

Todo esse amadurecimento de Tim Burton parece ter vindo a partir de um de seus filmes mais subestimados: Peixe Grande. Este filme sobre contar histórias transparece ser o mais pessoal dos filmes de Tim Burton. Feito logo após o falecimento de seu pai, Burton faz da relação pai/filho o principal conflito da história. Esse conflito já bastante presente nas outras obras do diretor é, pela primeira vez, colocado como o principal mote de um filme. O resultado é fenomenal, mais uma vez um mundo de fantasias invade o mundo real, dessa vez através das histórias do pai do personagem de Billy Crudup (alter-ego de Burton?). As histórias invadem a "realidade" do filme, através de flashbacks fantásticos, bizarros e engraçados. Talvez o mais belo filme de Tim Burton.

Alguém poderá afirmar que Burton também fez antes de Peixe Grande alguns filmes sérios, mas eles não chegam a me transmitir um amadurecimento por parte do diretor. Ed Wood, por exemplo, me parece ter sido feito por um diretor obcecado pelo seu personagem, é um filme sobre o amor ao cinema, e a identificação para com o personagem principal parece vindo do fato de Burton também não ter muita noção de cinema, no sentido de que nunca estudou pra isso, e caiu de gaiato nessa arte. Ed Wood é um filme bonito, e sério, mas não me parece muito maduro. Veio da empolgação de Burton com a história. Uma prova disso é o trabalho seguinte de Burton, o genial Marte Ataca!. Dirigido por um Ed Wood encarnado em Tim Burton, em Marte Ataca! Ed Wood faz o seu grande filme(em termos de dinheiro) que literalmente nunca fez.

(Vale ressltar que um filme imaturo não quer dizer necessariamente um filme ruim. Muito pelo contrário. Inclusive, o companheiro de blog Wellington Sari faz um interessante protesto contra a maturidade de alguns diretores no seu post sobre Senhores do Crime)

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e Planeta dos Macacos são duas tentativas de inclusão em gêneros. Uma muito bem sucedida, no primeiro caso, e outra nem tanto, no segundo. Também são filmes que já indicavam uma tentativa de mudança de Burton, principalmente na abordagem de suas histórias e na construção dos personagens principais. Mas esse mudança só viria a acontecer mesmo em Peixe Grande. Esses dois filmes me parecem apenas exercícios de Burton enquanto cinema.

Incrível é que apesar de todas essas mudanças e mutações, o universo de Burton continua lá, praticamente imutável, em todos os seus filmes. Sweeney Todd é um filme bizarro em todos os sentidos, e existe para provar que, apesar de facilmente identificável, Burton não é um cineasta simples. Esse louco de cabelos despenteados ainda abusará muito de seu atual patamar em Hollywood para nos trazer filmes loucos e fantásticos (em todos os sentidos que essa última palavra possa ter). Talvez com muitas cores, talvez com muito sangue. Viva Burton! E que continuem dando milhões de doláres para esse cara fazer os filmes que quiser.


P.S: Já vi partes dos Batmans do diretor, mas confesso que não lembro de tê-los assistido por inteiro. Por isso, eles não foram citados nesse texto.

P.S 2: Saiu um texto, do Fábio Andrade, sobre o universo de Burton na Revista Cinética. Ótimo texto, e que guarda suas semelhanças com muita coisa que foi dita aqui. Fica a dica de leitura.

Sweeney Todd e uma breve viagem pela filmografia de Tim Burton - Parte 1