Tem sido escrito por aí que Cronenberg, desde Marcas da Violência, vem praticando um cinema mais palatável, em que muitos dos temas – formais e narrativos -, caros ao diretor, ficam escondidos sob uma fachada de normalidade. Para muitos, o canadense teria encontrado uma forma de cinema mais "matura".
Basicamente o mesmo foi dito de Pedro Almodóvar em Má Educação e David Fincher em Zodíaco. No caso do cineasta norte-americano, frases do tipo “ah, agora sim ele amadureceu” foram bem recorrentes. Particularmente não sou um grande apreciador de Fincher, mas acho mais interessantes os excessos dos outros filmes do que as falassisses (o significado desta palavra que acabo de inventar, é: filme cheio de falação, em que os personagens ficam indo de um lugar ao outro, apenas para poderem falar com mais pessoas. Um grande exemplo é JFK, de Oliver Stone) de Zodíaco. Tudo isso para dizer que protesto veementemente contra a “maturidade’ dos cineastas: prefiro mil vezes o Cronenberg “imaturo” ao Croneberg careta de Senhores do Crime (E Almodóvar? Ele que se dane).
Careta no sentido de filmar um roteiro muito redondinho, repleto de soluções narrativas fáceis demais, que se misturam à opções estéticas questionáveis. A narração em off de Tatiana, com direito a violino e sei lá mais qual instrumento de corda, é um bom exemplo do que estou querendo dizer. A perfeita simetria que liga a perda do bebê de Ana, personagem de Naomi Watts - que acontece fora do período de tempo narrado pelo filme -, com a adoção, feita por ela, do recém-nascido “deixado” por Tatiana, é algo que parece não ter muita razão de ser. Estes “presentes do destino” não fazem nada além de enfraquecer o roteiro e de aproximá-lo das porcarias escritas por Guilhermo Arriaga para Alejandro González Iñárritu.
O fato de o personagem de Viggo Mortensen ser um policial é outra estratégia do roteiro que me incomoda. Parece-me uma concessão (não sei a que e ao o quê), cuja conseqüência é diminuir drasticamente a ambigüidade de Nikolai, um personagem dos mais bacanas. Este tipo de ambigüidade, vale lembrar, é o que faz de Marcas da Violência um grande filme.
Apesar de tudo, como dizia François Truffaut, não há filmes bons, apenas bons diretores. Não existe, e nunca existirá, portanto, um mau Cronenberg (assim como um mau Hitchcock, De Palma, Leone, Furtado...). Senhores do Crime, por mais problemático que seja, é o longa-metragem de um autor genial. E isso é o que interessa.
7 de março de 2008
Senhores do Crime, de David Cronenberg
por
Wellington Sari
às
22:22:00
Marcadores: David Cronenberg
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