1 de agosto de 2009

Horas de Verão, de Olivier Assayas


O filme de Assayas coloca em crise o valor dos objetos e do passado. “Coisas” só teriam importância quando ligadas à memória afetiva de alguém. Ou quando estão em contato direto com o Ser Humano. Sozinhos, ou vistos por pessoas “erradas” não são nada. Dois exemplos: Frédéric mostra para a filha e o filho adolescentes um dos quadros feitos pelo pintor de quem a casa e os objetos o homem e os irmãos herdarão. Frédéric tem grande apreço pelas pinturas. “Não são bonitos?”. “São, mas não fazem meu estilo”, responde o garoto.

Em dado momento, quando já foi decidido pelos irmãos que a casa e os objetos todos seriam vendidos ou doados, Éloise, a fiel empregada de Hélène – mãe de Frédéric – faz uma última visita ao lugar. Ela olha, através dos vidros, os cômodos. A câmera mostra tudo de dentro para fora. Não há vida. É tudo sem graça e velho. É só uma casa, afinal.

Mais tarde, a filha de Frédéric dá uma festa no local. Há uma multidão de jovens. Vestem as roupas de hoje. Ouvem as músicas de hoje (rap, roquinho indie). Não importa a casa, importa o momento. Tanto para nós quanto, obviamente, os personagens. Horas de Verão mostra isso: o instante vale mais do que a memória afetiva trazida por um objeto (no começo do filme, Frédéric, enquanto a mãe lhe dá detalhes sobre o testamento, argumenta que não quer vender a casa, “pois as crianças adoram”. “Não é a casa que elas adoram, mas a infância”). Ao mesmo tempo em que deixa claro: algumas pessoas tem uma outra sensibilidade e se importam sim com o passado (Hélène, Frédéric e a filha, que foge da multidão da festa, vai ao encontro do namorado e se lembra, melancolicamente, do passado).

Com estas questões em mente, é interessante pensar em aproximações com a projeção digital. Vi Horas de Verão ser projetado sem a materialidade da película, esse objeto que (quase) remete ao passado.