7 de fevereiro de 2008

Meu Nome Não é Johnny, de Mauro Lima


Ao observar um panorama recente do cinema brasileiro, percebemos que os filmes que conseguem um bom público, isso é, acima de um milhão de espectadores ou perto disso, se enquadram em uma das quatro seguintes definições: ou é sub-produto da Globo (Os Normais, A Grande Família, Xuxas, Didis); ou é novelão de duas horas, (Olga, Zuzu Angel); ou é Daniel Filho (Se Eu Fosse Você, Primo Basílio); ou é algum caso excepcional de aclamação de público e de crítica que acontece uma vez por ano (Cidade de Deus, 2 Filhos de Francisco, Tropa de Elite). Não sai disso. Pois o filme de Mauro Lima se mostra uma exceção a essa regra, não chega a se enquadrar totalmente em nenhum desses aspectos e mesmo assim já conseguiu ultrapassar a tão cobiçada (pelos filmes nacionais) marca do milhão de espectadores.

O filme tem lá seus problemas, sendo o maior deles a torta lição moral. Me pergunto, assim como muitos, se um julgamento de um negro e pobre na mesma situação de Johnny resultaria numa pena tão branda. O filme não entra nessa discussão, e nem se interessa muito por discutir questões sociais referentes ao tráfico de drogas. A narrativa não pretende julgar os acontecimentos reais no qual a obra é baseada, pretende apenas contar sua história. A busca aqui visa claramente o cinema comercial, dentro do gênero "baseado em fatos reais" (se é que isso é um gênero, hehe) e nesse quesito Meu Nome Não é Johnny se encontra muito acima da média do cinema popular contemporâneo nacional (isso considerando somente as três primeiras definições de cinema popular contemporâneo nacional do primeiro parágrafo, deixemos de lado os casos excepcionais). O resultado das bilheterias mostra que Meu Nome Não é Johnny conseguiu seu objetivo, o filme cativou o público, e isso sem se prender numa estética televisiva. Bom, muito bom. É um tipo de filme popular que faltava nesse país.

Boa parte do sucesso do filme, vale ressaltar, se deve a Selton Mello. Certamente o maior astro do cinema brasileiro atual, e que incrivelmente trabalha quase só com cinema. O cara não faz novelas há quase 10 anos, o que é de se admirar considerando o quanto essas novelas não devem pagar para o seu elenco. Para encarnar João Estrela, o personagem protagonista, Selton usa e abusa de sua persona, já conhecida de seu jeito e de trabalhos como O Cheiro do Ralo, Árido Movie, seus filmes com Guel Arraes e até curtas como Tarantino’s Mind. Não chega nem perto de ser a melhor de suas atuações (Lavoura Arcaica, alguém?), mas ele está bem, e prova sua eficiência em criar empatia com o público. Se existe um star system no cinema brasileiro, Selton Mello é sua melhor cria.

Quanto a Mauro Lima, ele assume um papel quase raro no Brasil de diretor “contratado”. Em seu trabalho anterior, Tainá 2, ele já demonstrou competência ao fazer, mesmo preso nas rédeas da Globo Filmes, um dos melhores filmes infantis nacionais da década (se bem que isso não quer dizer quase nada, Tainá 2 é só razoável). Mais uma vez Mauro Lima se encarrega de dirigir um filme de produtor. Marisa Leão foi quem comprou os direitos do livro, escreveu o roteiro e saiu em busca de um diretor. Escolheu bem.

Lima teve muito mais liberdade com Johnny do que em Tainá 2 e o resultado é inegavelmente um filme competente dentro de suas modestas pretensões. Algumas opções estéticas são interessantes e, apesar de uma grua meio desengonçada em dois planos, Mauro Lima demonstra um bom domínio de cena e que está por dentro das tendências de um cinema atual moderno (ao contrário de um Daniel Filho em Muito Gelo e Dois Dedos D'Água, Lima sabe que cinema moderno não é somente edição rápida e imagem acelerada). Percebe-se ainda que o interesse do diretor é muito maior pelos momentos de diversão do seu personagem principal, as cenas de festa tem um grande frescor e são alma do filme. Quando o roteiro acaba chegando a lugares comuns como o tribunal, a prisão, e o sanatório, Lima sabe que não há muito a desenvolver sobre essas situações, pois centenas de filmes já abordaram isso. Após a prisão de João Estrela, resta apenas esperar os acontecimentos finais e ver cumprida a função de ser um filme “baseado em fatos reais”.

Fica aqui o interesse em ver Mauro Lima dirigindo um projeto seu, com roteiro próprio, sem estar preso a certas fórmulas. Competência o rapaz tem.