Sweeney Todd! É assim, de forma abrupta, que o personagem principal do novo filme de Tim Burton aparece na tela. À deriva, um jargão do universo náutico, mas também uma expressão usada como metonímia, serviria muito bem para traduzir o tipo de sensação experimentada pelo espectador nos primeiros minutos do filme. No entanto, como o barbeiro interpretado por Johnny Depp surge em um barco, o emprego de tal figura de linguagem pareceria, caso fosse realmente utilizado, um tanto barata, um tanto óbvia demais. Nada de à deriva, então. Porque em Sweeney Todd - o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet não há muito lugar para o óbvio.
Cantando e cantando, numa Londres que, como descreve um personagem em Frenesi, de Hitchcock, é escura, cheia de neblina e “do jeito que os turistas esperam ver”, os participantes desta fábula sobre a cegueira vão nos encantando. Nos deixando entediados também, por que não?
Afinal, não é uma bela estratégia fazer o espectador experimentar o tédio apenas para tornar mais chocante o momento em que litros de sangue jorram do pescoço de alguém? Certamente é. A intenção de Burton, ao adaptar, como diretor contratado, tão fielmente o espetáculo escrito por Stephen Sondheim, em 1979, só pode ser um recurso para causar algum tipo de estranhamento. Quem espera ver tanto sangue – e, consequentemente, tanta emoção - em um musical?
Aí está um ótimo exemplo de contrabandista, no sentido da expressão criada por Martin Scorsese. Mesmo que não dê para dizer que Burton trabalhe dentro dos “limites criados pelo estúdio”, já que goza de certa liberdade na indústria cinematográfica norte-americana, é impressionante como o cineasta dos cabelos malucos faz deste filme algo tão seu. O que se dá não (só) à partir da repetição de signos que nos permitem identificar Sweeney Todd - o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet como pertencente ao “lugar” criado por Burton, dentro do imaginário cinéfilo. Mas sim, devido ao clima, ao tom, ao discurso. A coerência deste longa-metragem com o restante da filmografia do cineasta – ou, pelo menos, é o que me parece, já que não a conheço por inteiro – é impressionante.
Impressionante, na verdade, é Helena Bonham Carter. Não sei qual é a doença que eu e Burton temos, mas o fato é que nos sentimos desesperadamente atraídos pela atriz (a diferença é que ele tem um filho com ela, enquanto eu não). Com suas olheiras e palidez dignas de um bonito cadáver, Helena é uma figura fascinante. Um contra ponto perfeito para o ingênuo vingador interpretado por Depp.
E tão repentinamente quanto aparecem, somem os personagens. Que fim deu o marinheiro e a filha de Sweeney Todd? A sub-trama que recebe considerável destaque dentro do filme, não se resolve. Sério mesmo, isso não é totalmente genial?
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