É reconfortante ver um filme composto por três histórias diferentes, contadas de forma não-linear, que NÃO se cruzam em nenhum momento! Esse maldito recurso, que chega ao ápice da chatice com a dupla Iñárritu/Arriaga, parece ser quase obrigatório no cinema contemporâneo, quando se trata de narrar dramas distintos dentro em uma obra (obviamente nem todos os roteiros com essa “sacada” são ruins, Dolls, de Takeshi Kitano é só um exemplo). Não interessa que este perturbador Veneno seja de 1991, quando, talvez, ainda não estivesse na moda a prática tão utilizada pelo diretor de Amores Brutos. A sensação de alívio e conforto continua a mesma. Sensação esta que só existe em relação a forma do roteiro, não ao filme em si. Pois há uma porção de imagens fortes aqui.
Não é porque falte o encontro “físico” dos personagens, que neste primeiro longa-metragem de Todd Haynes as três histórias sejam apenas esquetes desligadas umas das outras. Tudo tem a ver com sexo, inadequação e amor: o presidiário que tenta comer a todo custo o colega de cadeia, o cientista que sem querer engole um experimento e acaba tendo o rosto deformado, a criança que mata o pai e sai voando pela janela.
Histórias absolutamente cruéis, envoltas, muitas vezes, em um manto de ironia e humor-negro (a forma, toda cheia de rodeios, como o funcionário da detenção pergunta ao presidiário se ele é gay, e depois pergunta “homossexual se escreve junto ou separado?”; a resposta da mãe de Fred Beacon, o menino que sai voando pela janela, quando perguntada sobre a educação dada ao filho: “nós o educávamos bem, batíamos nele e o deixávamos de castigo, como todos os pais fazem”). E por aí vai.
Se, tematicamente, as histórias giram em torno dos mesmos assuntos, esteticamente há algumas diferenças um pouco mais marcantes. Tal coisa acontece porque Haynes conta cada história mais ou menos dentro de um – ou mais – gênero cinematográfico. Há elementos dos “filmes de cadeia”, “filmes B de monstro dos anos 50” e filmes de fantasia, além de outras coisas.
A história do presidiário, fotografada de forma a privilegiar as sombras, talvez seja a mais perturbadora. Quase não há planos abertos e quase não se vê o rosto dos atores por inteiro. Duas cenas são bastante intrigantes. Em uma delas, o presidiário que é alvo das paixões do protagonista deste episódio (não consigo lembrar do nome da maioria dos personagens, porque quase não se é citado no filme. E, no IMDB, mal dá para saber quem é quem, já que a maioria dos atores não fez mais nada além deste longa, por isso não há fotos deles para ajudar na identificação) começa a mostrar, quando os dois estão sozinhos na cela, as cicatrizes que tem no corpo.
Isso estabelece uma curiosa ligação com determinada sequência de Tubarão, de Spielberg, quando os personagens estão no barco, bêbados e começam, cada um, a comparar suas cicatrizes. Um gesto cuja intenção não é outra além provar masculinidade e coragem, já que todas as marcas foram provocadas por aventuras contra tubarões, etc. Até que o personagem de Richard Dreyfuss aponta para o peito e diz que ali está a maior cicatriz de todas, causada por uma garota que o deixou, partindo seu coração para sempre. É uma cena que parece ser sobre a força do homem, mas que no fim serve para mostrar a fragilidade masculina perante as mulheres, amor. É exatamente a mesma coisa em Veneno, só que aqui trata-se de um amor gay. É curiosa, também, a forma como Haynes mostra o sexo entre os dois presidiários. Parece que o diretor esta filmando a primeira cena de amor entre Cary Grant e Eva Marie Saint, em Intriga Internacional. O enquadramento é exatamente o mesmo.
O episódio do menino que voa é encenado como um documentário em que os personagens contam ao público pequenos fatos da vida de Fred Beacon. Sempre esquisitos, é preciso acrescentar. A parte final desta história é bastante bonita, quando vemos, em câmera subjetiva do menino, tudo o que ocorreu: ele encontrando seu pai batendo em sua mãe (o marido descobriu que a esposa o traia com o jardineiro da família), pegando uma arma, atirando, indo até a janela e voando. Chama a atenção o fato de que Haynes tenha escolhido representar um documentário – tido como um tipo de cinema que lida exclusivamente com o “mundo real” – para narrar a história menos realista de Veneno.
A história do cientista, fotografado em preto e branco, cheio de enquadramentos inusitados, em ângulos oblíquos, é o menos pungente dos três. O curioso aqui é que a história se passa no anos 50, mas, apesar de os figurinos, a direção de arte e os cabelos serem desta década, aparentemente os carros não são.
Seria interessante se o cinema indie americano apontasse suas câmeras com mais freqüência ao tipo de assunto abordado aqui por Haynes. Caso alguém queira saber minha opinião sobre qual rumo o cinema indie americano deveria tomar.
9 de fevereiro de 2008
Veneno, de Todd Haynes
por
Wellington Sari
às
00:18:00
Marcadores: Todd Haynes
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