9 de dezembro de 2010

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, de Woody Allen


Depois da patacoada de Caetano Veloso sobre Woody Allen, fica difícil ver um filme do novaiorquino sem pensar “hum, figurinos cor-de-creme”. De fato, eles estão lá, aos montes. Sempre estiveram, claro. Eles só não chamavam tanta atenção – a seguir, as duas funções de uma calça marrom claro e um blazer bege: a) não chamar atenção. b) não manchar outras roupas, quando colocadas juntas na máquina de lavar. É verdade que Caetano tem uma parcela do mérito em nos fazer notar as roupas feitas para não serem notadas, presentes em toda filmografia/guarda-roupas de Allen. Mas não é o único responsável. Nem o principal. Tal papel é, atualmente, de forma literal, desempenhado por Josh Brolin.


O contraste entre o tipo físico do ator – um tanto truculento e, vá lá, vulgar - e o vestuário predominantemente marrom do qual utiliza, é notório. Não levássemos em conta um dos temas centrais de Você vai conhecer o homem dos seus sonhos e certamente pensaríamos que a escalação do norte-americano estaria incrivelmente equivocada. “O que esse cowboy faz no meio destes almofadinhas trajando ternos bem cortados e calças de veludo?”. A questão, no entanto, aqui e em grande parte dos muitos longas-metragens do diretor é essa: pessoas, que se consideram miscasts na vida, querem interpretar os papéis que (elas acham) lhes são de direito. Tais papéis, muitas vezes, estão ligados ao mundo da arte (ultimamente, adentraram o inventário as classes sociais e a idéia de velhice: pobres buscam ser ricos e velhos almejam ser jovens).

Roy, o personagem de Brolin, tenta ser escritor. Apesar de ter emplacado um livro de sucesso, nunca mais conseguiu repetir a dose. Resta-lhe trabalhar como motorista. Então, bate o carro e tenta voltar a escrever. Fracassa, pois não é bom o suficiente. Até que o destino lhe sorri. Ou quase – desde que Allen descobriu o destino e Chabrol, as coisas tem se resolvido em suas narrativas, assim, com ajuda deles, o destino e Chabrol. Mesmo vestindo a fantasia caqui de escritor/intelectual do universo alleniano, Roy não cabe neste mundo. As roupas não lhe caem bem, como resume a imagem que, mostra o homem, camisa desabotoada e pança à mostra – e, em seguida, pança coberta e camisa abotoada caoticamente – caminhar pelas ruas de Londres.

Há, evidentemente, uma aparente contradição de idéias nos parágrafos acima: se os personagens sonham com vidas melhores, muitas vezes impossíveis – e não é só Roy; Helen acredita em clarividência e pensa que com a ajuda do ocultismo encontrará um amor; Alfie, que já está velho demais para ser considerado um sedutor, emprega todos os meios, inclusive Viagra, para parecer mais jovem – e se, no caso do aspirante a escritor, tais sonhos implicam fuga da vida comum, da vida do anonimato, porque usar roupas caqui? Ora, porque são uniformes, ou códigos, que significam (para a alegria dos rapazes e moças entusiastas da semiótica) intelectualidade no universo de Allen. Até aí tudo bem. Nada de novo. A questão é que, de uma vez por todas, o diretor usa o expediente de trazer para o campo visual a problemática do miscasting (digo “de uma vez por todas” porque pelo menos desde Matchpoint o expediente vem sendo empregado, mas nunca de forma tão evidente).

Um exemplo que ecoa a situação de Roy, presente em Interiores, talvez ajude a deixar a afirmação mais clara. Nesta obra de 1978 há, também, um escritor de um sucesso só que se ressente pelo fato de não conseguir voltar ao topo. Talvez ele não seja tão bom. Talvez não pertença ao mundo dos escritores de sucesso. Só que ninguém pode dizer que não se parece (com a idéia que se faz de) um escritor de sucesso. Apenas sabemos que ele não o é pelo que ouvimos, em uma longa cena em que discute o assunto com a mulher. Não pelo que vemos, como no caso de Roy.

Pode-se questionar até que ponto esse jogo entre fantasia/ator em Você vai conhecer o homem dos seus sonhos é algo plenamente consciente, ou nada mais do que a repetição de um costume - ou visão de mundo – do autor. Sendo assim, fosse qual fosse o tema de seu filme, estivesse quem estivesse interpretando um dos personagens, e o figurino seria basicamente o mesmo. A verdade é que pouco importaria a resposta. A possibilidade de ver tal jogo está lá, na tela. Mesmo que escondida sob um pulôver verde musgo.

7 de dezembro de 2010

3 de dezembro de 2010

A rede social, de David Fincher


O primeiro som que se ouve em A rede social, ainda durante o logotipo da Columbia, são os acordes iniciais de Ball and biscuit, do White stripes. A canção segue, até virar música de fundo no bar em que Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e Erica Albright (Rooney Mara), sentados à mesa, conversam. A trilha sonora, neste caso, tem a função de demarcar uma época – à mesma maneira daquele velho expediente de se utilizar um hit da disco music para indicar que determinada seqüência tem lugar nos anos 70, por exemplo. Estamos, portanto, diante de um filme de época. Que se passa antes de ontem, por volta de 2002, 2003.

Neste mundo, em que bandas, a cada pressionada de F5 no site Pitchfork, são eleitas “nova salvação do rock” - isso há alguns anos; hoje não existe salvação; tampouco rock - e em que Fiuk e Justin Bieber, ainda contando os minutos restantes para completar seus quinze de fama, são temas de mais “biografias não autorizadas” do que Alex Chilton, Norman Blake e Guilherme Arantes juntos, não chega a espantar que Hollywood tenha se voltado a Zuckerberg, um rosto ainda imberbe no livro da História (evidentemente, um rosto infinitamente mais importante do que aqueles dois citados acima). Muito consciente da efemeridade das tendências de internet – lembre-se de que você já utilizou o ICQ e, possivelmente, teve um e-mail do Bol – a indústria cultural (é, essa expressão ainda deve existir) procura logo assegurar o lugar de Zuckerberg no museu do celulóide e do papel - materiais que talvez ainda existam.

O modo que Fincher parece ter encontrado para dar forma a este universo veloz e passageiro fica bastante claro já naquela primeira cena, no ritmo da fala do casal – principalmente no do futuro bilionário. A velocidade com que as frases são ditas surpreende. Faz lembrar Jejum de amor, de Howard Hawks, obra emblemática neste quesito. O que não significa que o cineasta tente estabelecer conexões com o passado, para além do empréstimo de modelos do filme de tribunal. Aqui, de maneira alguma, existe passado. Apenas o ontem, o antes de ontem e o agora pouco, já que a narrativa é costurada por estes três tempos. Como prova da ausência, basta nos perguntarmos, ao sairmos da sessão, o quanto sabemos da história de Zuckerberg, sem recorrer ao Wikipédia. Isso, no entanto, não é um problema. Ao contrário, é algo que potencializa o interesse pelo protagonista. Fechado – sorri apenas uma vez no longa todo - , enigmático (dentro do possível permitido por Hollywood) e obcecado, o Zuckerberg de Jesse Eisenberg é quase o Cherles Bronson de Era uma vez no Oeste. No que diz respeito à impassividade das expressões faciais - não do número de palavras ditas por segundo, claro. E este caráter impassível do rosto ganha uma incrível força dramática na cena final.

Tais escolhas formais para se tratar do mundo do criador do Facebook são interessantes porque sutis. Já outro aspecto, o da estruturação da narrativa, que busca traduzir a simultaneidade da internet, uma de suas características marcantes, intercalando, célere, os três tempos, parece óbvia demais. E vem acompanhada de uma pequena introdução, para que o espectador não se perca: na conversa do bar, Erica pergunta algo como “você tem sempre essa mania de falar várias coisas ao mesmo tempo?”. Esse, aliás, é o grande problema de Fincher. Ele acaba quase sempre sendo óbvio demais: quem se lembra das imagens “poéticas” envolvendo borboletas em O curioso caso de Benjamin Button possivelmente concorde. Adivinhe qual música encerra a saga do bilionário herói dos computadores? Baby, you´re a rich man.

25 de novembro de 2010

Cyrus, de Jay e Mark Duplas


Cyrus tem como um dos temas a questão da ocupação do espaço – o obeso personagem homônimo teme perder a vaga tanto no coração quanto na casa da mãe, pessoa com quem tem relação estranhíssima, que se pode considerar incabível. A obra produzida pelos irmãos Scott, é, também, bastante pequena. Não apenas em termos de orçamento e do que disso resulta - poucas locações, poucos atores, uso controlado de músicas famosas, recusa total à maquinaria (gruas, travellings), entre outros – mas, em matéria de construção do... espaço.
Que é quase ausente – se é que isso é possível, já que, como se sabe, o cinema narrativo é a arte do espaço. Esta curiosa “inexistência” acontece principalmente por três motivos. O primeiro é o fato de Jay e Mark Duplas filmarem os personagens (docemente esquisitões, como manda o guia Sundance de ser) quase sempre muito de perto, evitando sistematicamente o plano geral, “corrigindo” repetidamente a distância por meio daqueles bruscos zoom ins e zoom outs, muito comuns em séries de tv - The office vem à mente. O segundo é a delimitação pouco precisa do local onde se passa a ação. Como o longa-metragem quase não sai de casa – uma das poucas externas, passada em um parque, limita-se a uma pequenina porção de grama e a uma ou outra árvore – e os diálogos não tocam no assunto, não conseguimos decifrar nem mesmo a cidade em que a narrativa se desenrola. O terceiro por a dramaturgia não estabelecer, ao menos visualmente, áreas potencialmente interessantes, como o quarto de Cyrus.
Os três motivos estão absolutamente interligados. E, por mais que pareçam equívocos – um filme que trata do espaço sem, aparentemente, dimensioná-lo, é como uma banda que quer fazer música à Tennage fanclub sem se preocupar com melodia –, são, na verdade, acertos. Curiosos acertos. Talvez inconscientes.
Tal afirmação pode até causar a impressão de condescendência a um tipo de filme nada além de mediano, produto típico de um festival que se propõe uma alternativa ao “padrão”, mas que gera obras de códigos tão ferrenhamente respeitados e repetidos, que quase formam um gênero cinematográfico (um padrão, portanto). Não há problema.

De fato, a tensão entre a mise en scène e o tema de Cyrus é bastante interessante. A palavra tensão não é usada por acaso: uma vez que estes personagens, principalmente o antagonista, parecem habitar um espaço indefinido, somos constantemente surpreendidos – assim como John, interpretado por John C. Reilly – pelas pequenas aparições de Cyrus. O ápice desta situação, agora em propósito cômico, se dá quando John e Molly (Marisa Tomei), prestes a iniciar uma transa no sofá, são pegos de surpresa pelo jovem que, sentado à mesa, acende a luz e dispara: “oi, pessoal”.
O vazio, causado pela compreensão de que Cyrus não cabe em um lugar que mal sabemos qual é, consegue, ao fim, causar certa empatia. Disfuncional como os personagens, o filme atinge seus objetivos não por meio das músicas fofinhas, das piadas tristemente engraçadas ou dos olhos cheios de ternura de Marisa Tomei. E sim, pelo caminho do erro, das escolhas estéticas questionáveis, da incapacidade.

6 de outubro de 2010

Exibição de curtas e debate

Dia 08 de outubro, às 19h30, no Sesc Paço da Liberdade, serão exibidos quatro curtas-metragens, dois deles inéditos, para os alunos do Colégio Estadual do Paraná. Apesar de direcionado para os estudantes da escola, o evento é aberto a todo o público.

Após as sessões, haverá um debate com os realizadores.

Abaixo, informações sobre os curtas (que estão dispostos pela ordem de exibição):


Intervalo - Ficção | 9’ | 2010

Direção e Roteiro: Alexandre Rafael Garcia; Produção: Sandra Zawadzki; Fotografia: Renata Corrêa; Direção de Arte: Alex Rocca e Ana Deliberador; Montagem: Christopher Faust e Tomás Von der Osten.
Elenco: Thiago Milliarch, Poliana Rosa, Willian Scholz.

Sinopse: Pedro tem 16 anos, namora Ana e cursa o ensino médio. Em uma tarde qualquer: o colégio, olhares, a piscina. O azul.


Monique ao Sol - Ficção | 14’ | 2010

Direção e Roteiro: Wellington Sari; Produção: Alexandre Rafael Garcia e Juliana Rodrigues; Fotografia: Renata Corrêa; Montagem: Christopher Faust.
Elenco: Monique Rau e Wellington Sari.

Sinopse: Férias de inverno. Monique vai à praia com a família. Sem amigos por perto, ela tenta passar o tempo sozinha. Até que conhece um jovem na quadra de vôlei.


Garoto Barba -Ficção | 14’ | 2010

Direção e Roteiro: Christopher Faust; Produção Executiva: Antônio Junior; Produção: Marisa Merlo, Wellington Sari, Aly Muritiba; Fotografia: Maurício Baggio; Direção de Arte: Alex Rocca e Ana Paula Málaga; Montagem: Diego Florentino.
Elenco: Vitor Steinhaus, Maureen Miranda, Ricardo Alberti

Sinopse: Fábula sobre um garoto que, devido a uma rara doença, tem barba.


Coloridos - Documentário | 10’ | 2010

Direção: Christopher Faust e Evandro Scorsin; Produção Executiva: Alexandre Rafael Garcia; Produção: Anderson Simão e Juliana Rodrigues; Fotografia: Renata Corrêa; Montagem: Tomás Von der Osten.

Sinopse: É domingo. Sol, roupas brilhantes, cabelos esquisitos, óculos coloridos. Um grupo de jovens se reúne para debater o lugar que ocupam na sociedade.



SESC PAÇO DA LIBERDADE
Dia 08/10 – Sexta-feira | 19h30
Praça Generoso Marques, 189 - Centro

A lenda dos guardiões, de Zack Snyder


Assim que começa um filme de Zack Snyder, você fica esperando por aquelas “visionárias” sequências de luta em slow/fast motion. Ora, A Lenda dos guardiões é um longa-metragem com e sobre corujas. O bom senso lhe diz, então, “nada de sequências de luta em slow/fast motion dessa vez”.

Bom senso, você vale menos do que uma goiaba pululante de vermes .

Zumbis, espartanos, super heróis vestidos de coruja e corujas propriamente ditas, são, para Snyder, a mesma coisa: informações em uma timeline de programa de pós-produção à espera da aplicação de um efeito. Este constante emprego, não importa se em um humano ou animal, de uma técnica se traduz em coesão formal? Não. É apenas o resultado de alguém que se esforça demasiado para forjar um “estilo”. Nada pior para um diretor de cinema.

23 de julho de 2010

Stage frigth, de Michel Soavi

















Perfeita ilustração de Soavi para a idéia de que (no melhor do) cinema de horror italiano os personagens não sangram, mas colorem.

17 de julho de 2010

Encontro explosivo, de James Mangold


O início do novo filme do diretor de Jhonny e June é como uma paródia da primeira cena de Colateral: vemos Tom Cruise em um aeroporto, prestes a esbarrar em alguém e neste gesto realizar uma troca. Em Encontro explosivo, durante a espera para encontrar a pessoa que receberá o esbarrão, o personagem chupa um sorvete de chocolate e brinca no fliperama (evidentemente, um game de tiro, uma vez que atirar em pessoas é sua principal atividade, como descobriremos em seguida). O matador, portanto, se diverte.
A idéia principal de Mangold é essa: fazer um filme de matador profissional com diversão e romance (ação! risos! beijos! Tem de tudo no pacote). Com tal afirmação não surpreendo ninguém, uma vez que a proposta já está clara no trailer. No entanto, a maneira como isso se dá nem sempre está ligada puramente ao conteúdo – logo, nem sempre é tão óbvia -, como na piadinha do sorvete, mas também por meio da revelação das estruturas da própria obra. Antigamente se diria que Encontro explosivo é opaco, ou autoconsciente. Podemos simplificar e apenas escrever que o longa-metragem brinca com as convenções do thriller. Algumas vezes de maneira brilhante, como na cena em que Cruise e Cameron Diaz são cercados por inimigos. Em qualquer thriller sério veríamos o calvário do herói no cativeiro. Em seguida, presenciaríamos sua astúcia em enganar os raptores e escapar. Depois, observaríamos o mocinho despistar alguns bandidos e encontrar um esconderijo.
Cruise e Cameron passam por essa aventura. A diferença é que tudo não dura mais de um minuto. O homem droga a companheira segundos antes de os vilões os encontrarem, e o que vemos na tela é pelo ponto de vista da mulher, que abre o olho (fade in) e enxerga Cruise balançando amarrado de ponta cabeça e sem camisa, em um lugar sujo (fade out); abre o olho outra vez e os dois estão em um avião – o matador pronto para saltar de pára-quedas – fecha o olho; abre o olho e os dois estão em uma ilha tropical. Ela veste um biquíni vermelho. Pronto. Deixa-se somente o essencial para que a trama avance (a sina destes filmes é a do ônibus de Velocidade máxima: é preciso sempre ir para frente e rápido, senão explode), ao mesmo tempo em que tal estratégia é explicitada.
Difícil é não sentir frustração à medida que Encontro explosivo se aproxima do final. Gradativamente o longa deixa de brincar com as convenções e passa a temê-las e respeitá-las, como fazem os vilões – ou as mocinhas, veladamente ou não - diante dos heróis, em thrillers sérios ou comédias românticas.

9 de julho de 2010

Shrek para sempre, de Mike Mitchell


É bastante chocante perceber que as imperfeições e defeitos da pele de Shrek, quando vistas em close, são mais verossímeis que as da minha vó. O padrão de qualidade da animação norte-americana atual parece exigir essa mimetização plena do corpo-humano, o que resulta em personagens até caricatos (no sentido do aumento de certas partes do corpo, como a cabeça ou as mãos, buscando efeito cômico), mas que atuam e se movem exatamente como gente de verdade. Ou, melhor, bonecos que imitam gente de verdade. Mesmo que estes sejam gatos, burros ou biscoitos. Este progressivo antropormofismo hiper-realista nos proporcionará animações que, de tão “reais”, parecerão filmes live action?
É evidente que chamar Shrek para sempre de hiper-realista é um tremendo exagero. O faço apenas para sublinhar um ponto que considero bastante incômodo, por parecer muito mais uma estratégia mercadológica do que estética (dar aos bonequinhos aparência um pouco mais real, para o papai não se sentir tão boboca, no caso da Dreamworks e dar aos bonequinhos que vivem narrativas “tocantes” e superficialmente “sérias” aparência um pouco mais real, para o papai não se sentir tão boboca e ainda ter a sensação de que, no fundo, viu uma obra de temática adulta, no caso da Pixar). Não se trata aqui de defender uma suposta especificidade do cinema de animação - que devesse, portanto, empregar todo tipo de recurso que fosse só possível no desenho animado – em troca do cuidado extremo com que os animadores destes dois estúdios (mas não só) dispensam às texturas dos cabelos, dos pêlos e da pele dos personagens. Não.
A questão é: será que, mesmo dentro dos limites comerciais, não é possível um caminho alternativo (que seja também diferente do ocasional stop motion de Tim Burton e Wes Anderson)? Basta à animação mainstream se fiar ao “realismo” e em dubladores famosos (Dreamworks), nas narrativas exemplares – a eterna citação por parte dos entusiastas à sequência da passagem dos anos do casal em Up – Altas aventuras – e na dramaturgia tão bem manejada (Pixar)?
Ao final das contas, Shrek para sempre, em sua picaretagem digna da atual Marvel Comics de Joe Quesada (universo paralelo, passado apagado por mágica), pelo menos tem uma piada engraçadíssima. Mas só isso. Sério.

18 de maio de 2010

O poder da traição, de Atom Egoyan


Como quase toda vilã dos thrillers eróticos, Chloe é imaterial. A natureza da personagem está ligada ao mito, que tem como meta cumprir um objetivo específico, traçado de antemão, em um tempo outro, anterior não só ao filme, mas ao próprio cinema. O que diferencia a personagem de Amanda Seyfried de boa parte de suas semelhantes é a auto-consciência (algo que se pode dizer da obra mesma): em off, a jovem explica que pode ser tudo aquilo que os clientes quiserem, da “filha” à “professora de matemática”. Estamos falando, é claro, de fantasias sexuais. De projeções, portanto. A personagem, uma prostituta de luxo, sabe o que é e para quê serve.

A busca desesperada de uma mulher por algo concreto a se apegar é o assunto principal de O poder da traição. Chloe, cuja profissão lhe exige que seja boa com palavras (o melhor do filme vem justamente dos momentos em que ficamos privados de imagens e somos conduzidos apenas pelos relatos orais da moça), com as mãos (outros pequenos prazeres surgem da maneira como o cineasta amplifica os menores gestos da atriz, como quando durante a narração de um encontro com o marido de Juliane Moore, a “heroína” do longa-metragem, Chloe passa discretamente uma das mãos no nariz, logo após ter dito “então ele gozou na minha mão”) faz uso destes atributos para tentar persuadir a pacata mãe de família a se tornar algo que lhe seja mais do que uma idéia, ou uma fantasia sexual.

Ainda que fique evidente a intenção de Egoyan em fazer o público se deparar com os limites da perversão no campo do sexo, parece mais possível experimentar este sentimento quando se nota o paradoxo de Chloe: um mito que, consequentemente, carrega uma série de pré-conceitos e remete a mil e um personagens do cinema (a de Glen Close em Atração fatal, para citar somente um exemplo), sem um passado diegético que é, ao mesmo tempo, bastante humano. Novamente, são os pequenos gestos que conferem a jovem um aspecto comum, “mundano” (não no sentido do pecado, claro). Um deles, não tão pequeno assim, é o desolado olhar de Chloe para câmera, depois de ter sido rejeitada por seu objeto de desejo. Temos ali não a aparição, a vilã, a destruidora de lares, a femme fatale, mas a pobre garota que acaba de levar um fora do namorado(a) – e que já pensa na vingança, obviamente. Quem nunca viu, ou foi, uma dessas?

Quando Chloe despenca para morte, leve como a névoa se dissipando, indo embora do mesmo modo como surgiu, é que percebemos: talvez, O preço da traição seja mesmo sobre o quão perverso é viver em um mundo onde se termina um namoro pela web cam, onde o amor concreto, enfim, não é uma possibilidade.

29 de abril de 2010

O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella

Apesar de servir como “tema” principal do longa-metragem, o passado nunca chega a ser um peso em O segredo dos seus olhos. Tanto no sentido Histórico (o cenário político argentino pré-ditadura militar serve apenas para deixar o vilão mais detestável) quanto àquele ligado aos mistérios do caso envolvendo o assassinato brutal de uma jovem, investigado por Esposito (Ricardo Darín) que, teoricamente, continuam a assombrar o homem, vinte e cinco anos depois. Ainda que a segunda cena nos mostre o protagonista filmado em scope, ocupando o canto do quadro, que é repleto de áreas sombrias, tentando escrever em uma caderneta, cujas folhas são transformadas em bolinhas a cada tentativa fracassada de reconstrução do acontecido (o poder de comunicabilidade desta imagem é inegável; seu constante emprego, principalmente no cinema, mas não só, faz com que rapidamente a “decifremos”: escrever é um ato doloroso; temos aqui um herói, a estripar a alma e o coração em busca da verdade – ou algo do tipo), serão raros os momentos em Campanella nos dará a chance de ver os efeitos provocados pelos espectros em Esposito – ou, mais: experimentar os mesmos sentimentos de Esposito, algo que certamente se poderia esperar deste tipo de cinema.

O roteiro até prevê tal tipo de situação, como na sequência de flashback em que o investigador se depara com o corpo da vitima ensangüentado e estuprado. No entanto, essa imagem, que duas décadas e meia depois, permanece impregnada na retina do agora aposentado agente federal, deveria, suponho, ser digna de causar perturbação, de se configurar em um fardo do qual o herói não pôde se livrar durante aquele ponto da vida em diante. Mas, o que observamos na tela é um arranjo plasticamente impecável: o corpo alvo da belíssima vítima, seios à mostra, púbis estrategicamente escondida pelo joelho levantado, um dos braços graciosamente dobrados para trás, com o pulso servindo de apoio para cabeça e a palma da mão dramaticamente semi-aberta, banhada pelo providencial raio de sol que irrompe através da janela. Uma imagem quase agradável, digna de um dos episódios de Law and order – Special victims unit comandados pelo diretor (seria sobre isso O segredo dos seus olhos, então? Sobre a capacidade sedutora da imagem violenta, do sadismo, portanto? Definitivamente, não).

Mesmo que, repito, o roteiro indique que Esposito teve sua existência modificada depois de presenciar tamanho horror - a cena seguinte mostra o personagem em postura introspectiva, para que não reste qualquer dúvida ao espectador– as palavras do papel (o roteiro é quase sempre o ontem que age, de alguma maneira, sobre o eterno presente que é a imagem de cinema) não se transformam em material incômodo a ser captado pela câmera. Tudo é muito fácil e tranquilo, como o fade out que nos transporta serena e rapidamente da sequência em que o melhor amigo do protagonista é mostrado estirado na cama, o corpo perfurado de balas, para outra, muito mais confortável, já distante temporalmente (mas ainda situada no passado) da tristeza da perda do companheiro de trabalho, em que Esposito está acompanhado de Irene (Soledad Villamil), seu “interesse romântico”. Sair do que poderia perturbar e chegar logo ao que é mais palatável parece uma operação constante (e que se mostrou comercialmente bem sucedida) em O segredo dos seus olhos. Uma pena já que, como sabemos todos, muito açúcar dá dor de barriga.

2 de abril de 2010

Pauline na praia, de Eric Rohmer




É inegável o peso da palavra em Rohmer. Mas, não são raras as vezes em que seus filmes se resolvem assim, com a mise-en-scène resumida a um indescritível movimento dos olhos (ou da luz, ou dos lábios...).

26 de março de 2010

Como treinar seu dragão, de Chris Sanders e Dean Deblois


Da mesma maneira que em Avatar, a nova animação da Dreamworks nos mostra um personagem domando uma fera alada, ação que leva a vertiginosas cenas de vôos super velozes nas alturas. Que resultam, é claro, em inevitáveis quedas (o 3D, me parece, tem vocação para este tipo de infortúnio, graças à potencialização da profundidade de campo). Também como na obra de Cameron, um curioso posicionamento político brilha atrás das nuvens coloridinhas e fofas que são as imagens destes dois filmes.

No primeiro, vemos Jake Sully - um fuzileiro norte-americano - ser mais esperto, forte e corajoso do que todos os outros guerreiros da tribo Na´vi. Uma de suas maiores demonstrações de virtude é conseguir domar Toruk, a poderosa besta voadora, feito que nenhum dos seres azuis “originais” havia conseguido até então. No segundo, acompanhamos Soluço, o jovem e atrapalhado viking-em-formação, habitante da ilha de Berk, abater o mais temido dragão do lugar: uma criatura negra que lança destruidoras chamas roxas. Ao procurar a vítima ferida, o garoto encontra o monstro ainda vivo, preso na rede atirada por sua arma. Soluço libera a fera e, mais tarde, descobre que ela não pode voar, pois está com a cauda machucada. Depois de firmar uma relação de amizade com o dragão (a cena em que os dois ficam frente a frente, os olhos verdes, felinos e grandes da criatura indicando diferentes emoções, é bastante cativante) Soluço resolve construir uma peça que substitua a parte danificada da calda.
A intenção do jovem não é libertar o monstro – agora apelidado carinhosamente de Banguela -, mas domá-lo. E isso desencadeia um processo que faz terminar a histórica guerra entre dragões e vikings e iniciar a domesticação completa dos animais (a passagem se dá de maneira bastante nebulosa: é difícil entender a relação de submissão, transmutada em revolta com a rapidez e artificialidade com que um mágico saca um coelho branco da cartola, entre as várias espécies de dragões e o dragãzão gigantesco que vive dentro do vulcão). E assim fica tudo bem. Animais a serviço do Homem. Como deve ser.

Se em Avatar o fato de o norte-americano - corpo azul ou não, Jake ainda é um norte-americano do exército - ser o escolhido e assim ensinar uma série de valores à tribo (não é sempre este o dever cívico que motiva a política externa intervencionista dos Estados Unidos?) está em terceiríssimo plano, já que há muito mais a se ver no longa-metragem (a compreensão da natureza pouco sólida da imagem 3D, por parte de Cameron, que a incorpora na composição da fauna e flora do planeta Pandora, é impressionante), o mesmo não se pode dizer de Como treinar seu dragão. A questão da dominação, aqui, é tratada de forma muito mais aberta pelo roteiro. A narração em off ao final e os últimos planos não deixam lá muitas dúvidas sobre o quão benéfico para o ser humano é ter um dragão de estimação. Ou melhor: ter um ex-inimigo como servo.

12 de março de 2010

Ilha do Medo, de Martin Scorsese

Prenda-me se for capaz: a personagem de Michelle Williams se esvai.

Posso estar errado, mas imagino que a tradução de Shutter island para Ilha do medo tem como objetivo sugerir algum tipo de relação com Cabo do medo. Ela existe, de fato (para além da semelhança geo marítima): ambos são filmes bem pé no gênero e lidam com a loucura. A diferença é que enquanto neste último a insanidade é material, física, cuja imagem marcante é a de Robert De Niro musculoso e tatuado, o primeiro põem em cena o impalpável, o etéreo, o fugidio, aquilo “o que não é, mas resulta: a indizível dimensão”, nas palavras de Vinícius de Moraes. Neblina, fumaça, fogo e a cor branca: o cinema é arte ideal para estes quatro elementos (Yambo, o protagonista de A Misteriosa chama da rainha Loana, de Umberto Eco, é fascinado pela imagem do nevoeiro e coleciona diversas passagens de grandes escritores descrevendo o fenômeno: nenhuma delas chega perto do primeiro plano de Ilha do medo, em que “entre brumas ao longe surge” não a aurora, mas a balsa trazendo os personagens de Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo). Justamente por isso é um prazer notar como o roteiro vai, sistematicamente, sendo coberto pelo véu leitoso das imagens impalpáveis criadas por Scorsese. As reviravoltas, revelações, idas e vindas da trama ao fim, nada são além de distantes silhuetas parcamente distinguíveis por trás da espessa e alva névoa que toma a tela.

14 de fevereiro de 2010

Lucio Fulci em três imagens




The Beyond, The New York ripper e Zombie, respectivamente.

1 de fevereiro de 2010

Programa Duplo

Próxima sessão do CINECLUBE SESC PAÇO DA LIBERDADE (05/02/2010):

Ciclo de animação:

Canadá ontem & hoje
BEGONE DULL CARE (8 min.), de Norman McLaren e Evelyn Lambart
BLINKITY BLANK (5 min.), de Norman McLaren e Eve
lyn Lambart
LINHAS: HORIZONTAL (6 min.), de Norman McLaren
QUANDO NASCE O DIA (10 min.), de Wendy
Tilby e Amanda Forbis

(texto e apresentação de João Krefer)

e, logo em seguida:

Ciclo de horror à italiana:


SUSPIRIA (98 min.), de Dario Argento

(texto e apresentação de Wellington Sari)


Entrada franca!
Data: 05/02/10
Horário: 19h30
Filmes projetados.
Legendas em português.
Sessões quinzenais, sempre às sextas-feiras.

Serviço:
Paço da Liberdade
Praça Generoso Marques, 189 - Centro - Curitiba
tel: (41) 3234 4200

O Cineclube Sesc Paço da Liberdade é uma produção do Sesc Paraná/Paço da Liberdade, realizada por integrantes da cooperativa O Quadro.

20 de janeiro de 2010

Programa Duplo

Próxima sessão do CINECLUBE SESC PAÇO DA LIBERDADE (22/01/2010):

Ciclo de animação:

Reorganizando a vida: animações tchecas

A HISTÓRIA DO VIOLONCELO (13 min.), de Jiri Trnka
DIMENSÕES DO DIÁLOGO (12 min.), de Jan Svankmajer
MÍDIA (5 min.), de Pavel Koutsky

(texto e apresentação de João Krefer)

e, logo em seguida:

Ciclo de horror à italiana:

TODAS AS CORES DA ESCURIDÃO (94 min.), de Sergio Martino

(texto e apresentação de Wellington Sari)

Entrada franca!

Data: 22/01
Horário: 19h30
Filmes projetados. Sessões quinzenais, sempre às sextas-feiras.

CLIQUE AQUI PARA VER O CARTAZ DA SESSÃO.

Serviço:
Paço da Liberdade
Praça Generoso Marques, 189 - Centro - Curitiba
tel: (41) 3234 4200

O Cineclube Sesc Paço da Liberdade é uma produção do Sesc Paraná/Paço da Liberdade, realizada por integrantes da cooperativa O Quadro.

5 de janeiro de 2010

Programa Duplo


Para começar bem o ano: nesta sexta, dia 8, às 19h30, no Sesc Paço da Liberdade, acontece mais uma sessão dupla do ciclo de horror à italiana e do ci
clo de animações.

Ciclo de animação:

Musicalidades: o ritmo como fator determinante na animação

COMPOSIÇÃO EM AZUL, de Oskar Fischinger (4 min.)
RADICAIS LIVRES, de Len Lye (5 min.)
O VELHO MOINHO, de Wilfred Jackson (9 min.)
TANGO, de Zbigniew Rybczynski (9 min.)
A TORRE NEGRA, de Stan Brakhage (3 min.)

Texto e apresentação de João Krefer

e, em seguida

Ciclo de horror à italiana:

O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, de Dario Argento (96 min.)

Texto e apresentação de Wellington Sari

Entrada franca!

Filmes projetados e com legendas em português.
Sessões quinzenais, sempre às sextas-feiras.

Clique aqui para ver o cartaz da sessão.


Serviço:
Paço da Liberdade Sesc Paraná
Praça Generoso Marques, 189 - Centro - Curitiba
tel: (41) 3234 4200

O CINECLUBE SESC é uma produção do Sesc Paraná/Paço da Liberdade, realizada por integrantes da cooperativa O Quadro.