31 de janeiro de 2008

Celular, de David R. Ellis


Em uma cena de Celular - Um Grito por Socorro, o herói-por-acaso, vivido por Chris Evans, tenta achar o filho da personagem de Kim Basinger em meio a várias crianças na saída de uma escola. Ela então o avisa, por telefone, que seu filho usa uma mochila com estampa do Senhor dos Anéis e se chama Ricky Martin. Sim, o garoto se chama Ricky Martin, e o nome foi dado antes do sucesso do cantor, avisa ela. Estas duas referências, por mais bizarras que pareçam, são chave para a compreensão do filme que estamos vendo. Um filme pop, comercial, que busca entretenimento, nada mais.

O filme começa com Kim Basinger acompanhando o filho em direção ao ônibus escolar, enquanto ainda rolam os créditos. Menos de um minuto depois já estamos dentro de sua casa, alguns brutamontes a invadem, atiram na empregada, e prendem a bela cinquentona no sótão. Não há em “Celular – Um Grito de Socorro” espaço para epílogos ou apresentações, a ação precisa começar imediatamente. Se em um plano sabemos que a personagem é uma mãe da família, isso já o suficiente para compreender o que o filme quer com essa personagem, e no outro plano a ação já pode começar. Mais uma breve cena de apresentação, do personagem de Chris Evans como um playboyzinho deixado pela namorada, e logo ele já recebe em seu celular a ligação de uma Kim Basinger desesperada. Em menos de 4 minutos já temos todo o conflito do filme apresentado e estabelecido. Aí meu amigo, só resta a ação.

Em geral, no roteiro de Celular nada faz muito sentido. O próprio plot inicial do filme já é bem absurdo: a mulher seqüestrada, mexendo nos fios de um telefone destruído, consegue ligar para o celular de um rapaz, que agora se vê na necessidade de salvá-la. Se Alfred Hitchcock dizia que “a verossimilhança não interessa”, David R. Ellis não deve nem saber o significado dessa palavra. No roteiro, escrito por Chris Morgan a partir de um argumento de Larry Cohen, tudo passa do limite do inverossímil, é um clichê atrás do outro. seguido de um grande absurdo atrás do outro.

David R. Ellis começou em Hollywood nos anos 70 como dublê, depois passou a trabalhar como coordenador de dublês, e mais tarde foi promovido a assistente de direção. Só veio a dirigir seu primeiro filme em 2003: Premonição 2. Um filme bem mediano, diga-se de passagem, mas com uma ótima seqüência de acidente numa rodovia, que já mostrava que Ellis tinha algum talento, pelo menos para cenas de ação e explosão.

Existem outros filmes que brincam com essa inverossimilhança do cinema de ação, porém obras como “True Lies”, de James Cameron, e “Adrenalina”, da dupla Mark Nevaldine e Brian Taylor, levam essa inverossimilhança para um lado de sátira, da comédia. E o filme de David R. Ellis se diferencia desses dois exemplos por, apesar de mostrar o absurdo do filme de ação, querer se situar como um exemplar desse gênero e nunca o satirizar. O olhar de “Cellular” para com o cinema de ação não é de deboche, é mais um olhar de apreço, quase uma ode a esse cinema. É apenas um filme consciente de seu papel. E divertido, como poucos filmes de ação dessa década o são.

28 de janeiro de 2008

O Segredo da Múmia, de Ivan Cardoso

O conceito da antropofagia assume, neste filme, uma de suas mais brilhantes representações. Misturar toda uma infinidade de lendas estrangeiras (quer dizer, as lendas estrangeiras mais especificamente filtradas pelo cinema americano realizado nos anos 30 e 40 pela Universal e também pelas produções britânicas da Hammer, nos anos 50), de forma genuinamente brasileira, é nada menos do que maravilhoso. Digno de milhões de vivas. Digno de urros de alegria.

Sim, porque O Segredo da Múmia é absolutamente único. Feito noutra época ou lugar, seria completamente diferente (e isso é preciso ser dito, por mais óbvio que pareça). Obra-prima - no seu sentido literal – reconhecida em seu tempo, por quem mais interessa: o público.

Lançado em 1982, o filme fez mais de um milhão de espectadores (e é intrigante pensar o abismo gigantesco, tanto em proposta estética quanto temática, que separa O Segredo da Múmia de Meu Nome Não é Johnny, que, por enquanto, atingiu público parecido). Atualmente, a brilhante estréia de Ivan Cardoso em longa-metragem é praticamente inacessível. Não foi lançado em DVD, os VHS são raríssimos. A única possibilidade é o Canal Brasil. Aí, um grande paradoxo: filme feito para as massas, hoje só pode ser visto em um canal da tv paga.

A importância de O Segredo da Múmia não está somente no fato de ter inaugurado o terrir , designação, que, por si só, não significa muita coisa. Afinal, na mesma época Sam Raimi lançava o seu Evil Dead, em que, indiscutivelmente, há uma mistura de terror e comédia. O mérito, portanto, deste filme de Cardoso não é o de ter inaugurado um sub-gênero cinematográfico, mas sim de ter criado, dentro de uma estrutura formal e temática, um tipo de cinemacheio de segundas intenções.

O uso de elementos do grotesco, representado principalmente pela figura de Igor, um careca ajudante do Professor Vitus – o protagonista – e por mulheres que pouco ao pouco assumem a aparência de lobos, dentro de um cativeiro, é muitas vezes apenas uma desculpa para mostrar nudez gratuita. Afinal, qual é a razão de se interromper uma cena “séria” com o letreiro de “enquanto isso” e cortar para uma cama em que Regina Casé está nua, sendo lambida loucamente por Igor? Ou então, por que as mulheres presas no cativeiro, depois de alguns dias no local, começam a se beijar e a praticar sexo bestialmente? Razão narrativa, no sentido de fazer a história avançar, não há nenhuma. Mas, há a razão estética. Por que o grotesco misturado com o deboche, com a satirização reverencial (é mais do que óbvio que Cardoso ama múmias, cientistas loucos e outras crias do cinema de gênero, por mais que o tratamento dado a estes personagens procure o caminho do escracho), o terror, a comédia e a pornochanchada, resulta em algo que representa plenamente o espírito de um povo (por mais que o conceito de “povo” seja um pouco complicado em um país tão etnicamente diverso como o Brasil) .

O que explica o seu sucesso na época. Nenhum filme exploitation (que basicamente trabalha com os mesmos elementos) de qualquer lugar do mundo se parece com o que Cardoso criou (e é claro que não estou fazendo juízo de valor). Daí o terrir de Cardoso ter realmente importância para a história do cinema brasileiro: na sua forma própria tanto de encenar, como de retrabalhar temas universais, o sub-gênero vai muito além da simples homenagem ou do pastiche - o que seria o mais esperado, dado ao tipo de referências utilizadas pelo cineasta -, para se transformar em algo genuinamente novo.

Novo, anárquico – o preto e branco e o colorido se alternam de forma totalmente arbitrária; o passado é colorido e às vezes o presente é preto e branco – e bastante inventivo na hora de solucionar os galhos exigidos pelo roteiro. Como mostrar a ida do Professor Vitus até o Egito, em busca da múmia que lhe servirá de cobaia para experimentar o elixir da vida? Simples. Pega-se uma foto do centro de Cairo, coloca-se por cima uma legenda escrita “Cairo”, filma-se imagens do Professor Vitus olhando para frente, em algum lugar do Brasil que se assemelhe a um deserto e, no contra-plano, coloca-se alguns stock shots das pirâmides. E então, para mostrar que o professor alcançou seu objetivo, insere-se a imagem de um jornal com a manchete anunciando que a múmia fora encontrada, seguido de um cine-jornal no estilo de News On The March, de Cidadão Kane. Brilhante!

25 de janeiro de 2008

Desejo e Obsessão, de Claire Danes


Em Desejo e Obsessão, Claire Danes esboça um roteiro a partir de elementos de filmes B de terror e ficção científica, o que inclui aí algumas experiências genéticas bizarras. Mas não é isso o que interessa à diretora francesa. A narrativa segue um rumo bem diferente, essas experiências mal são explicadas, e nem é necessário entender a história completamente para se entrar no transe do filme. Eu mesmo não entendi patavinas (palavra engraçada essa, não acham? patavinas...) e virei fã do filme. Danes se interessa é por seus personagens, pela angústia, pela solidão, e pelo desejo deles. As experiências genéticas, bizarras e mal explicadas servem apenas como um ponto de partida para levar esses personagens ao limite de seus sentimentos e desejos.

Muito sangue falso e pouquíssimos diálogos são coisas difíceis de encontrar num mesmo filme. Danes cria uma tensão constante, que é alimentada principalmente pela ausência quase completa de diálogos. Diálogos esses que realmente soariam desnecessários, pois as situações-limite por quais passam os personagens já conseguem delinear bem o que eles estão passando. Diálogos ou maiores explicações aqui só atrapalhariam e desviaram a atenção do espectador para o que realmente importa para Danes.

A cara de maníaco de Vincent Gallo é quem carrega o filme, em um personagem que está sempre em briga consigo mesmo, e corre atrás de um amor (ou um erro?) do passado. Mas quem impressiona é Béatrice Dalle, que se entrega totalmente numa atuação, no mínimo, corajosa. Sua performance é visceral, intensa, sensual, carnal. Adjetivos que também podem ser usados para descrever o filme.

No fim, em meio a antropofagia e muito sangue, percebemos que o ser humano ainda é primitivo. Que existem buscas que não tem fim, o que se começou não terminará assim tão fácil, e o ciclo continuará na cara de maníaco de Vincent Gallo.

21 de janeiro de 2008

Cat In The Brain, de Lucio Fulci



A terceira coisa mais indesejável que pode acontecer a um ser humano, dentre todas as coisas indesejáveis que existem no mundo, é ter o cérebro devorado por um gato (ter que pagar impostos e bater o cotovelo em uma quina são a primeira e segunda, respectivamente). Para se obter o ranking das coisas indesejáveis, um instituto bastante sério e respeitável realizou uma longa série de entrevistas com uma pessoa. Pois bem....Pois bem. Quanto mais invento gracinhas, menor será a minha capacidade de relacioná-las com o assunto deste texto. Melhor parar enquanto é tempo, como dizia, no leito de morte, o cowboy da Marlboro.

Lúcio Fulci, mestre do cinema fantástico italiano, na maior parte da carreira, fez um cinema indesejável. Pelo menos para os que têm estômago fraco. Rei do gore, as obras de Fulci estão repletas de vísceras, sangue, decapitações, desmembramentos e, principalmente, de foleys. Provavelmente nunca o barulho de um pescoço sendo rompido por um serra elétrica soou tão alto e exagerado quanto nos filmes do italiano. Tais características são o que de mais óbvio pode-se observar na filmografia do diretor. Porque no fundo, Fulci é o rei de um tipo de cinema livre (na mais ampla significação da palavra), visual, primitivo - no sentido de ser instintivo, urgente - apaixonante e que é cada vez mais raro.

Cat In The Brain narra os sofrimentos de um diretor de cinema, interpretado pelo próprio Fulci, que, começa a ter alucinações – que consistem no mais belo e puro exploitation - resolve procurar um psiquiatra. Ele se sente perturbado pelo próprio material que criou ao longo da carreira. A imagem mais forte e que sintetiza o filme é logo a primeira: Fulci, em uma sala mal iluminada, escreve uma cena repleta de desmembramentos e tudo mais. A câmera, que está em plongeè, começa a se movimentar em direção à cabeça do diretor. Entramos em seu cérebro. Lá dentro há um gato, devorando tudo.

Por mais que exista uma grande quantidade de obras que tratam das angústias do artista responsável por comandar um filme – sendo Noite Americana e Oito e Meio os exemplos mais óbvios -, Cat In The Brain é (quase) único. Pelo menos em sua subversão. Sim, porque em uma análise bem superficial, pode-se dizer que este longa-metragem é apenas uma desculpa para o diretor italiano mostrar cenas censuradas de seus filmes anteriores – que são as tais alucinações, afinal. Artifício, vale lembrar, ainda se valendo de uma análise superficial, também utilizado por José Mojica Marins em Delírios de um Anormal , muitos anos antes.

Já em uma avaliação - um pouco - mais aprofundada, o que se vê em Cat in The Brain é o auto-retrato de um artista que sempre esteve à margem do cinema italiano, mesmo o de gênero (Fulci costumava dizer que fazia o mesmo que Dario Argento, mas com muito menos orçamento). Se esta imagem de si mesmo é verdadeira, não se sabe. Mas, o Fulci que vemos na tela é um homem solitário e perturbado, que parece viver única e exclusivamente em função do cinema. O que não quer dizer que o filme não tenha humor. Longe disso. O calvário vivido pelo diretor italiano muitas vezes é engraçado. Por exemplo: O personagem vai a um restaurante almoçar e o garçom lhe oferece um delicioso tipo de carne, justamente depois da última alucinação de Fulci, que mostrava um homem comendo, literalmente, uma mulher.

Mesmo assim, há um certo tom de despedida, que permeia todo o longa-metragem. A imagem de Fulci indo embora, em direção ao mar, dentro de um barco a velas, acompanhado de uma bela mulher, reforça esta impressão (a piada que antecede tal momento parece funcionar como uma tentativa de confortar os espectadores que ficaram assustados com as loucuras do diretor).

Após Cat In The Brain, Fulci ainda realizou três filmes, no ano seguinte, em 1991. Depois, entrou em um ostracismo, que terminou com uma misteriosa morte, no ano de 1996: diabético, aparentemente Fulci esqueceu de tomar, em determinada noite, a injeção de insulina que o mantinha vivo. Até hoje há quem acredite que o diretor deliberadamente não aplicou o remédio.

19 de janeiro de 2008

As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot


Quando se fala no cineasta que é o “mestre do suspense”, o primeiro nome a vir na cabeça de qualquer pessoa é o de Alfred Hitchcock. E se o assunto é o “mestre do suspense” do cinema francês, todo bom cinéfilo sabe que falamos de Claude Chabrol. À sombra desses dois grandes cineastas existe na história do cinema Henri-Georges Clouzot, um diretor também digno da alcunha de “mestre do suspense”.

Clouzot só não é hoje tão conhecido quanto os “mestres do suspense” por causa dos problemas de saúde que afetaram sua carreira, e também, logicamente, por não ser gordo assim como Chabrol e Hitchcock (todo mundo sabe que os bons diretores, especialmente os de suspense, precisam ser gordos). Clouzot dirigiu seu primeiro longa em 1942, logo no ano seguinte conseguiu atingir algum sucesso e respaldo da crítica com “Le Corbeau”, e chegou ao seu ápice nos anos 50 com “Salário do Medo” e este “As Diabólicas”, um dos 13 Must-See Horror Movies segundo William Friedkin. Mas, nos anos 60, problemas de saúde o impediram de continuar sua promissora carreira. Ele tentou ainda fracassamente fazer alguns filmes. “L’ Enfer”, de 1964, não pode ser finalizado porque o diretor sofreu um ataque cardíaco. Para a sorte de quem gosta de cinema, Clouzot vendeu o roteiro de “L’ Enfer” para Claude Chabrol, que veio realizar esse filme somente 30 anos depois. O filme foi chamado por aqui de “Ciúme - O Inferno do Amor Obsessivo” e já ganhou um texto neste blog. Clouzot morreu em 77, e ainda realizou no fim dos anos 60 dois filmes pouco conhecidos, um em 67 e outro em 68. Mas é hora de deixar a carreira de Clouzot de lado e falar sobre As Diabólicas, pois é sobre isto que esse texto deveria ser.

A trivia do Imdb, que acabou de nos dar a informação sobre “L’Enfer” e Chabrol no fim do parágrafo anterior, também nos conta que Clouzot adquiriu os direitos de filmagens do livro no qual As Diabólicas é baseado apenas algumas horas antes de Alfred Hitchcock. E é muito fácil imaginar esse filme dirigido pelo Hitchcock, pois a trama se mostra bem hitchcockiana e o estilo de filmar de Clouzot tem várias semelhanças com o estilo do “maior cineasta de todos os tempos”. (Não, o segundo não é o Brian DePalma.)

Claramente dividida em duas partes, a história gira em torno de um triângulo amoroso. Michel acabou de largar sua amante Nicole, e trata muito mal Christina, sua mulher rica e católica devota. As duas, cansadas do canalha, decidem matá-lo. A primeira hora de filme é o planejamento e a execução desse assassinato. E, na parte final, as duas assassinas têm que lidar com a culpa do crime que cometeram, e com o fantasma de Michel, que parece rondar o lugar em que vivem.

O fato do filme se passar numa escola infantil, onde Michel é o diretor e as duas são professoras, é uma forma de contrapor toda essa trama de crime com a inocência, aqui representada pelos alunos da escola. A cena em que as crianças ficam ao redor da piscina onde foi jogado o corpo de Michel, funciona perfeitamente para aumentar a dor da culpa de Christina, a mulher devota e traída pelo marido que odiava. Uma mulher que nunca seria capaz de cometer um crime desses, e agora tem que conviver com o pecado dentro de si.

As Diabólicas foi um dos primeiros filmes a, desde sua divulgação, se vender pelo seu final. Ao término do filme há letreiros que pedem para não contar o final a ninguém. E já que eles tiveram o trabalho de ao término do filme fazer letreiros que pedem para não contar o final a ninguém, não contarei o final a ninguém. Ou seja, você terá que ver o filme para saber. Há! Mas aviso para, quando assistir ao filme, não assista pensando apenas no final, pois ele é decepcionante. Pensando duas vezes, o filme chega até a ser um tanto absurdo por causa do seu final. Mas o que importa é “como” acontece, e não “o que” acontece. E por isso, assim como "Psicose", de Alfred Hitchcock, ou "A Vila", de M. Night Shyamalan, "As Diabólicas" é o grande filme que é, não pela resolução da trama, mas sim por toda sua genial criação de suspense.

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Mais uma curiosidade que a trivia do Imdb trás para você (eu adoro as trivias do Imdb, se ainda não perceberam): Os autores do livro que inspirou As Diabólicas, Pierre Boileau e Thomas Narcejac , ao saberem que Hitchcock não conseguiu por questão de horas os direitos de seu livro, resolveram escrever um novo romance especialmente para Hitchcock filmar. O livro, “d’Entre Les Morts”, foi adaptado para o cinema com o título “Vertigo”. Pelo jeito, acabou tudo nas mãos certas.

9 de janeiro de 2008

Unidos pelo Sangue, de Sean Penn


Nesse filme sobre dois irmãos muito diferentes entre si vemos a história sempre do ponto de vista de Joe, o policial e homem de família interpretado por David Morse, tendo inclusive esse personagem como o narrador no começo e durante as transições de tempo. Porém é no outro irmão, Frank, o rapaz problemático e violento vivido por Viggo Mortensen, que reside toda a força de Unidos pelo Sangue.

O começo do filme, mostrando a vida de Joe em uma cidade pequena e a repentina vinda de Frank depois de ter ido à guerra, leva a crer que estamos diante de um pequeno drama humano e familiar, mas à medida que a câmera de Penn começa a acompanhar mais de perto Frank, percebemos que o filme avança a um desfecho poderoso e sanguinolento, onde muita coisa acontecerá no dia do nascimento do filho de Frank. Não entrarei em maiores detalhes da história para não estragar a experiência de quem ainda não viu este filme, mas é aos poucos que Unidos pelo Sangue mostra ser um estudo sobre a violência, e sobre como apesar das vontades, às vezes, não se pode fugir de sua natureza, não se pode fugir de si mesmo.

Frank tem muito em comum com um personagem que o mesmo Viggo Mortensen interpretaria 14 anos depois, o Tom Stall, de Marcas da Violência, do David Cronenberg, especialmente na tentativa de reprimir a violência dentro de si. Frank se parece também com o próprio diretor Sean Penn. Ele, [/momento fofoca on] envolvido em escândalos no fim dos anos 80 por suas brigas com a namorada Maddona[/momento fofoca off], coloca no filme cenas de Frank batendo em sua mulher, interpretada por Patricia Arquette num visual semelhante com uma certa fase de Maddona. Acredito que Penn conhecia muito bem o personagem que criou e, provavelmente, se idenficava com ele. Talvez seja dessa identificação, jutamente com a ótima performance de Viggo Mortensen, que vem toda a força desse personagem.

Em se tratando de um filme que tem a violência como um dos temas principais é particularmente acertada a escolha de Charles Bronson (neste que é o seu último papel de algum valor. Bronson depois só fez uns filmes para tv e Desejo de Matar 5) para viver o pai de Joe e Frank. Um interessante personagem, interpretado através do Método Charles Bronson(não resisti, desculpem), aquele método que consiste em simplesmente não fazer nenhuma expressão o tempo todo, mas que apesar da incapacidade de Bronson para a atuação acaba rendendo pelo menos duas belas cenas, graças a Sean Penn e a tudo que Kulechov já nos ensinou.

Pode-se dizer que Sean Penn atualmente se encontra no ápice de sua carreira como diretor. Seu novo filme, Na Natureza Selvagem, foi muito elogiado e está cotadíssimo para o próximo Oscar, e ele acabou de ser escolhido como o presidente do júri do próximo Festival de Cannes. Não é por menos, aqui na sua estréia como diretor, Penn já demonstra um grande talento por trás das câmeras, e mesmo se os seus dois filmes seguintes com Jack Nicholson não cheguem a ser excepcionais, é em cenas marcantes (e que a princípio parecem pequenas) sobre personagens presos em si mesmos que Penn se encontra como autor. Como aquele magnífico final de A Promessa, com Jack Nicholson solitário, que mesmo tendo visto na época do lançamento é uma cena que ainda não me sai da cabeça.

4 de janeiro de 2008

Morrer Mil Vezes, de Hal Ashby



Há alguns anos vi por acaso um filme chamado Muito Além do Jardim, e achei brilhante, o que já era de se esperar de um filme que tem Peter Sellers numa atuação não menos que genial, arrisco a dizer ser até a melhor atuação de sua carreira. E foi de meu espanto quando justamente em uma conversa informal sobre Peter Sellers no ano retrasado que Airton Lhamas, um filósofo e empresário do ramo imobiliário, me confessou adorar Muito Além do Jardim, dirigido por Hal Ashby - "um talentoso diretor", disse ele. Anotei aquele nome, porque quem conhece Airton Lhamas sabe que quando Airton Lhamas gosta de um filme, é porque o filme é bom mesmo.

Então esses dias estava olhando alguns VHS em um sebo, achei um filme do Hal Ashby, me lembrei de Airton Lhamas e resolvi levar pra casa. Foi esse Morrer Mil Vezes, que é um exemplar do gênero de ação com elementos noir, o último filme da carreira de Hal Ashby (que morreu dois anos depois, em 88), e que demonstrou ser uma boa surpresa. Ashby pega um fiapo de história, baseado num roteiro de David Lee Henry e Oliver Stone (sim, Oliver Stone!), que nas mãos de um zé ninguém poderia se transformar em apenas mais um filme de ação dos 80, e nos entrega um interessante filme.

O que logo me chamou a atenção foram alguns planos muito longos. Não são planos-sequência virtuosos como um Scorsese ou DePalma faria, mas sim planos que valorizam a interpretação dos atorese a mise-en-scene, evocando de certa forma o Elia Kazan de Vidas Amargas. Essa opção de longos planos é bem corajosa por parte de Ashby, principalmente em se tratando de um filme de ação de estúdio. Nesses planos Ashby demonstra um completo domínio de mise-en-scene, e exige bastante de seus atores, ao mesmo tempo em que visivelmente deixa espaços para improvisações. As atuações são boas, Jeff Bridges interpreta um ex-policial alcoólatra, Rosana Arquete faz uma femme fatale por quem os homens são capazes de arriscar sua vida, e o grande destaque é Andy Garcia, em um de seus primeiros papéis de grande importância no cinema (inclusive Brian DePalma resolveu chamá-lo para fazer Os Intocáveis após ver esse filme). Garcia interpreta o vilão, um traficante com direito até a sotaque colombiano e um pequeno rabo de cavalo, rouba quase todas as cenas em que aparece e parece se divertir o tempo todo enquanto atua, especialmente nos improvisos.

Hal Ashby começou trabalhando como assistente de edição, depois subiu ao cargo de editor, acabou ganhando o Oscar nessa categoria por No Calor da Noite, de Norman Jewison, e então começou a dirigir filmes. Alguns de seus filmes dos anos 70 chegaram a ser sucesso de crítica e público, como Ensina-me a Viver, Shampoo e A Última Missão, porém nos anos 80 Ashby passou por "maus bocados". O vício em álcool e drogas, e sua cada vez maior obssessão pela montagem de seus filmes, acabaram atrapalhando sua carreira. Tanto que seu último filme considerado de algum valor é justamente Muito Além do Jardim, de 1979, citado no início desse texto. E foi sabendo desse passado alcoólatra e obssessivo pela edição que a PSO Entertaiment, o estúdio "dono" de Morrer Mil Vezes, demitiu Hal Ashby logo após o término das filmagens e o diretor não pode acompanhar o processo de edição, que ficou por conta do estúdio.

Ainda assim Morrer Mil Vezes é um obra digna, e nos seus melhores momentos é possível perceber o enorme talento de Ashby. Além dos planos longos, temos também no clímax uma cena dentro de um enorme galpão vazio, seis anos antes de Cães de Aluguel. Nesta cena temos Jeff Bridges e sua trupe de um lado, Andy Garcia e sua trupe de outro lado, e Rosana Arquette e vários quilos de cocaína entre eles. Talvez a edição não seja do jeito que Ashby faria se estivesse supervisionando a montagem, mas a cena funciona muito bem, desde seu conceito até a sua montagem, a tensão é construída aos poucos e as ótimas atuações também ajudam.

Alguns elementos podem soar datados, como a trilha sonora, os celulares gigantes e o bigode de Jeff Bridges, e acabam por situar a obra como oitentista. Ashby não conseguiu deixar seu filme atemporal, como William Friedkin fez com Viver e Morrer em Los Angeles, por exemplo (mas talvez seja um pouco injusta uma comparação com o melhor filme de ação dos anos 80), e por isso visto hoje a obra não chega a ter um um frescor. Mas apesar de todos os problemas, por causa dos longos planos, por Andy Garcia, pelo domínio de mise-en-scene de Ashby, e talvez porque o diretor se identificou com os problemas com álcool do personagem principal, este é um belo filme-despedida de Hal Ashby. Um filme esquecido e pouco reconhecido pela crítica e pelos cinéfilos em geral, mas que gostei muito. E tenho certeza que um certo empresário do ramo imobiliário que eu conheço gostaria também.

3 de janeiro de 2008

O Método Adam Sandler


Eu gosto do Adam Sandler pronto falei. É isso. Algum dia alguém iria descobrir, então achei melhor dizer isso de uma vez por todas. Obviamente não gosto tanto dele como o Antonio demonstrou gostar do Marlon Brando alguns posts atrás (e o título desse texto é um trocadilho, sem graça por sinal, com título do post do Antonio, logo já deixo claro que até onde eu sei não existe nenhum método Adam Sandler de interpretação, mas bem que ele podia inventar um...), até porque o Marlon Brando é o Marlon Brando e o Adam Sandler...bom, o Adam Sandler é só o Adam Sandler. Sei que o rapaz é um tanto limitado, que geralmente interpreta variações de uma mesma persona, e que já fez inúmeras bombas. Little Nicky - Um Diabo Diferente, Tratamento de Choque, A Herança de Mr. Deeds e Rei da Água são alguns dos exemplos, e olha que nem vi algumas de suas comédias recentes como Golpe Baixo ou Eu Os Delcaro Marido e... Larry. Mas ainda assim eu gosto dele, é um rapaz legal, e tem talento. Eu acho. Ele só deveria escolher melhor os seus projetos. Aliás, deveriam criar uma lei que só permitisse a Adam Sandler fazer dois tipos de filmes: comédias românticas onde faz par com a Drew Barrymore; e filmes dirigidos pelo Paul Thomas Anderson (que é o rapaz barbudo na foto ao lado de Sandler). Quem sabe assim sua carreira seria um pouco interessante e o ator teria menos detratores.

Seus três melhores filmes são Embriagado de Amor, Como se Fosse a Primeira Vez e Afinado no Amor, deixando claro que há um abismo separando a qualidade do filme do Paul Thomas Anderson aos demais. Anderson foi genial ao criar Barry Egan, o personagem principal de sua obra-prima Embriagado de Amor, especialmente para Sandler. Ele, fã de Sandler, fez o personagem baseado na própria vida do ator, e o resultado é estrondoso, Sandler criou um personagem único na história do cinema, com uma atuação concisa e humana. Surpreendeu a todos, demonstrando grande talento, num nível talvez até maior do que Jim Carrey quando em 98 fez O Show de Truman, porém sem tanta repercussão claro, já que Punch-Drunk Love não é tão fácil quanto o filme de Peter Weir.

Neste ano Adam Sandler se aventurou mais uma vez pelo drama. Foi em Reine Sobre Mim, de Mike Binder, lançado diretamente em dvd aqui no Brasil, filme que vi essa semana e que motivou a existência desse texto. O problema é que, assim como Adam Sandler não é nenhum Marlon Brando, Mike Binder está muito longe de ser um Paul Thomas Anderson. Binder é, e provavelmente sempre será, um diretor mediano, pra não dizer medíocre. Seus filmes são uma mistura de drama e comédia sobre conflitos casuais e cotidianos de pessoas da classe média-alta americana. Binder sempre parece tentar criar em seus filmes uma aura bacana, de filmes legais sobre dramas bonitos, com músicas escolhidas a dedo na trilha, e geralmente apostando especialmente em seus protagonistas, como em A Outra Face da Raiva, primeiro filme de Binder, que apostava no talento de Joan Allen; e Um Cara Quase Perfeito, que apostava no carisma(?) de Ben Affleck; e aqui em Reine Sobre Mim, seu terceiro filme, que aposta especialmente na figura de Adam Sandler.

Em Reine Sobre Mim, Sandler interpreta um cara que perdeu sua família no 11 de setembro, e depois disso ficou meio louco. A persona de Sandler cabe bem no personagem, e o ator tem seus melhores momentos quando está mais contido, já que seus típicos ataques de fúria quando verbais, como na consulta psiquiátrica, acabam às vezes por lembrar suas performances cômicas(cujo o ápice ainda é sua canção "Somebody Kill Me" em Afinado no Amor). E cabe a Don Cheadle, interpretando um antigo colega de faculdade do personagem de Sandler e que acaba se tornando seu único amigo, juntamente com Sandler segurar as pontas do filme. São os dois que conseguem salvar Reine Sobre Mim de um fiasco maior. Afinal, apesar de uma premissa interessante, o texto é muito ruim, sempre caindo em vários clichês, o que prejudica a performance dos atores. E até as referências do filme, tanto de filmes quanto musicais, soam estranhas. A ida aos filmes do Mel Brooks, por exemplo, parece saída diretamente de um filme de Buñuel, de tão surrealista que é.

O filme sofre ainda do que eu chamo de um certo "mal da Steadycam". Não tenho nada contra a Steadycam, ela pode ser um ótimo artíficio e ser usada magistralmente, como o próprio Paul Thomas Anderson o fez em Embrigado de Amor. Mas no filme de Binder ela parece apenas uma solução preguiçosa de decupagem, apenas uma solução mais fácil de mostrar seus personagens andando de um lugar para outro, e sem muitos ensaios. E como Binder compõe muito bem seus planos fixos, isso contrapõe ainda mais com esse uso um tanto desleixado da Steadycam.

Em uma cena de Reine Sobre Mim, Sandler e Cheadle tocam guitarra e bateria em uma sala. É bem sem graça. E se Mike Binder não consegue deixar legal uma cena de dois caras tocando guitarra e bateria numa sala, é porque falta algum talento aí. É "por essas e outras" que Reine Sobre Mim é um filme que "não fede nem cheira", "não arrisca nem petisca", "não tem eira nem beira",isso pra ficar somente em três provérbios populares. Olhando no IMDB vejo que os próximos projetos de Adam Sandler parecem bem desinteressantes, até um roteiro do Judd Apatow tem um zé mané dirigindo. Mais comédias ruins na carreira de Sandler, talvez porque ele tenha uma imagem que precisa manter em Hollywood, e precisa manter essa imagem fazendo alguns filmes-padrão. Mas torcemos para que ele faça mais projetos arriscados e com diretores interessantes, pedindo muito quem sabe até mais um filme com o Paul Thomas Anderson. Afinal, só pra terminar com um outro provérbio que pode se adaptar aqui, "boi amarrado também pasta".