3 de janeiro de 2008

O Método Adam Sandler


Eu gosto do Adam Sandler pronto falei. É isso. Algum dia alguém iria descobrir, então achei melhor dizer isso de uma vez por todas. Obviamente não gosto tanto dele como o Antonio demonstrou gostar do Marlon Brando alguns posts atrás (e o título desse texto é um trocadilho, sem graça por sinal, com título do post do Antonio, logo já deixo claro que até onde eu sei não existe nenhum método Adam Sandler de interpretação, mas bem que ele podia inventar um...), até porque o Marlon Brando é o Marlon Brando e o Adam Sandler...bom, o Adam Sandler é só o Adam Sandler. Sei que o rapaz é um tanto limitado, que geralmente interpreta variações de uma mesma persona, e que já fez inúmeras bombas. Little Nicky - Um Diabo Diferente, Tratamento de Choque, A Herança de Mr. Deeds e Rei da Água são alguns dos exemplos, e olha que nem vi algumas de suas comédias recentes como Golpe Baixo ou Eu Os Delcaro Marido e... Larry. Mas ainda assim eu gosto dele, é um rapaz legal, e tem talento. Eu acho. Ele só deveria escolher melhor os seus projetos. Aliás, deveriam criar uma lei que só permitisse a Adam Sandler fazer dois tipos de filmes: comédias românticas onde faz par com a Drew Barrymore; e filmes dirigidos pelo Paul Thomas Anderson (que é o rapaz barbudo na foto ao lado de Sandler). Quem sabe assim sua carreira seria um pouco interessante e o ator teria menos detratores.

Seus três melhores filmes são Embriagado de Amor, Como se Fosse a Primeira Vez e Afinado no Amor, deixando claro que há um abismo separando a qualidade do filme do Paul Thomas Anderson aos demais. Anderson foi genial ao criar Barry Egan, o personagem principal de sua obra-prima Embriagado de Amor, especialmente para Sandler. Ele, fã de Sandler, fez o personagem baseado na própria vida do ator, e o resultado é estrondoso, Sandler criou um personagem único na história do cinema, com uma atuação concisa e humana. Surpreendeu a todos, demonstrando grande talento, num nível talvez até maior do que Jim Carrey quando em 98 fez O Show de Truman, porém sem tanta repercussão claro, já que Punch-Drunk Love não é tão fácil quanto o filme de Peter Weir.

Neste ano Adam Sandler se aventurou mais uma vez pelo drama. Foi em Reine Sobre Mim, de Mike Binder, lançado diretamente em dvd aqui no Brasil, filme que vi essa semana e que motivou a existência desse texto. O problema é que, assim como Adam Sandler não é nenhum Marlon Brando, Mike Binder está muito longe de ser um Paul Thomas Anderson. Binder é, e provavelmente sempre será, um diretor mediano, pra não dizer medíocre. Seus filmes são uma mistura de drama e comédia sobre conflitos casuais e cotidianos de pessoas da classe média-alta americana. Binder sempre parece tentar criar em seus filmes uma aura bacana, de filmes legais sobre dramas bonitos, com músicas escolhidas a dedo na trilha, e geralmente apostando especialmente em seus protagonistas, como em A Outra Face da Raiva, primeiro filme de Binder, que apostava no talento de Joan Allen; e Um Cara Quase Perfeito, que apostava no carisma(?) de Ben Affleck; e aqui em Reine Sobre Mim, seu terceiro filme, que aposta especialmente na figura de Adam Sandler.

Em Reine Sobre Mim, Sandler interpreta um cara que perdeu sua família no 11 de setembro, e depois disso ficou meio louco. A persona de Sandler cabe bem no personagem, e o ator tem seus melhores momentos quando está mais contido, já que seus típicos ataques de fúria quando verbais, como na consulta psiquiátrica, acabam às vezes por lembrar suas performances cômicas(cujo o ápice ainda é sua canção "Somebody Kill Me" em Afinado no Amor). E cabe a Don Cheadle, interpretando um antigo colega de faculdade do personagem de Sandler e que acaba se tornando seu único amigo, juntamente com Sandler segurar as pontas do filme. São os dois que conseguem salvar Reine Sobre Mim de um fiasco maior. Afinal, apesar de uma premissa interessante, o texto é muito ruim, sempre caindo em vários clichês, o que prejudica a performance dos atores. E até as referências do filme, tanto de filmes quanto musicais, soam estranhas. A ida aos filmes do Mel Brooks, por exemplo, parece saída diretamente de um filme de Buñuel, de tão surrealista que é.

O filme sofre ainda do que eu chamo de um certo "mal da Steadycam". Não tenho nada contra a Steadycam, ela pode ser um ótimo artíficio e ser usada magistralmente, como o próprio Paul Thomas Anderson o fez em Embrigado de Amor. Mas no filme de Binder ela parece apenas uma solução preguiçosa de decupagem, apenas uma solução mais fácil de mostrar seus personagens andando de um lugar para outro, e sem muitos ensaios. E como Binder compõe muito bem seus planos fixos, isso contrapõe ainda mais com esse uso um tanto desleixado da Steadycam.

Em uma cena de Reine Sobre Mim, Sandler e Cheadle tocam guitarra e bateria em uma sala. É bem sem graça. E se Mike Binder não consegue deixar legal uma cena de dois caras tocando guitarra e bateria numa sala, é porque falta algum talento aí. É "por essas e outras" que Reine Sobre Mim é um filme que "não fede nem cheira", "não arrisca nem petisca", "não tem eira nem beira",isso pra ficar somente em três provérbios populares. Olhando no IMDB vejo que os próximos projetos de Adam Sandler parecem bem desinteressantes, até um roteiro do Judd Apatow tem um zé mané dirigindo. Mais comédias ruins na carreira de Sandler, talvez porque ele tenha uma imagem que precisa manter em Hollywood, e precisa manter essa imagem fazendo alguns filmes-padrão. Mas torcemos para que ele faça mais projetos arriscados e com diretores interessantes, pedindo muito quem sabe até mais um filme com o Paul Thomas Anderson. Afinal, só pra terminar com um outro provérbio que pode se adaptar aqui, "boi amarrado também pasta".