4 de janeiro de 2008

Morrer Mil Vezes, de Hal Ashby



Há alguns anos vi por acaso um filme chamado Muito Além do Jardim, e achei brilhante, o que já era de se esperar de um filme que tem Peter Sellers numa atuação não menos que genial, arrisco a dizer ser até a melhor atuação de sua carreira. E foi de meu espanto quando justamente em uma conversa informal sobre Peter Sellers no ano retrasado que Airton Lhamas, um filósofo e empresário do ramo imobiliário, me confessou adorar Muito Além do Jardim, dirigido por Hal Ashby - "um talentoso diretor", disse ele. Anotei aquele nome, porque quem conhece Airton Lhamas sabe que quando Airton Lhamas gosta de um filme, é porque o filme é bom mesmo.

Então esses dias estava olhando alguns VHS em um sebo, achei um filme do Hal Ashby, me lembrei de Airton Lhamas e resolvi levar pra casa. Foi esse Morrer Mil Vezes, que é um exemplar do gênero de ação com elementos noir, o último filme da carreira de Hal Ashby (que morreu dois anos depois, em 88), e que demonstrou ser uma boa surpresa. Ashby pega um fiapo de história, baseado num roteiro de David Lee Henry e Oliver Stone (sim, Oliver Stone!), que nas mãos de um zé ninguém poderia se transformar em apenas mais um filme de ação dos 80, e nos entrega um interessante filme.

O que logo me chamou a atenção foram alguns planos muito longos. Não são planos-sequência virtuosos como um Scorsese ou DePalma faria, mas sim planos que valorizam a interpretação dos atorese a mise-en-scene, evocando de certa forma o Elia Kazan de Vidas Amargas. Essa opção de longos planos é bem corajosa por parte de Ashby, principalmente em se tratando de um filme de ação de estúdio. Nesses planos Ashby demonstra um completo domínio de mise-en-scene, e exige bastante de seus atores, ao mesmo tempo em que visivelmente deixa espaços para improvisações. As atuações são boas, Jeff Bridges interpreta um ex-policial alcoólatra, Rosana Arquete faz uma femme fatale por quem os homens são capazes de arriscar sua vida, e o grande destaque é Andy Garcia, em um de seus primeiros papéis de grande importância no cinema (inclusive Brian DePalma resolveu chamá-lo para fazer Os Intocáveis após ver esse filme). Garcia interpreta o vilão, um traficante com direito até a sotaque colombiano e um pequeno rabo de cavalo, rouba quase todas as cenas em que aparece e parece se divertir o tempo todo enquanto atua, especialmente nos improvisos.

Hal Ashby começou trabalhando como assistente de edição, depois subiu ao cargo de editor, acabou ganhando o Oscar nessa categoria por No Calor da Noite, de Norman Jewison, e então começou a dirigir filmes. Alguns de seus filmes dos anos 70 chegaram a ser sucesso de crítica e público, como Ensina-me a Viver, Shampoo e A Última Missão, porém nos anos 80 Ashby passou por "maus bocados". O vício em álcool e drogas, e sua cada vez maior obssessão pela montagem de seus filmes, acabaram atrapalhando sua carreira. Tanto que seu último filme considerado de algum valor é justamente Muito Além do Jardim, de 1979, citado no início desse texto. E foi sabendo desse passado alcoólatra e obssessivo pela edição que a PSO Entertaiment, o estúdio "dono" de Morrer Mil Vezes, demitiu Hal Ashby logo após o término das filmagens e o diretor não pode acompanhar o processo de edição, que ficou por conta do estúdio.

Ainda assim Morrer Mil Vezes é um obra digna, e nos seus melhores momentos é possível perceber o enorme talento de Ashby. Além dos planos longos, temos também no clímax uma cena dentro de um enorme galpão vazio, seis anos antes de Cães de Aluguel. Nesta cena temos Jeff Bridges e sua trupe de um lado, Andy Garcia e sua trupe de outro lado, e Rosana Arquette e vários quilos de cocaína entre eles. Talvez a edição não seja do jeito que Ashby faria se estivesse supervisionando a montagem, mas a cena funciona muito bem, desde seu conceito até a sua montagem, a tensão é construída aos poucos e as ótimas atuações também ajudam.

Alguns elementos podem soar datados, como a trilha sonora, os celulares gigantes e o bigode de Jeff Bridges, e acabam por situar a obra como oitentista. Ashby não conseguiu deixar seu filme atemporal, como William Friedkin fez com Viver e Morrer em Los Angeles, por exemplo (mas talvez seja um pouco injusta uma comparação com o melhor filme de ação dos anos 80), e por isso visto hoje a obra não chega a ter um um frescor. Mas apesar de todos os problemas, por causa dos longos planos, por Andy Garcia, pelo domínio de mise-en-scene de Ashby, e talvez porque o diretor se identificou com os problemas com álcool do personagem principal, este é um belo filme-despedida de Hal Ashby. Um filme esquecido e pouco reconhecido pela crítica e pelos cinéfilos em geral, mas que gostei muito. E tenho certeza que um certo empresário do ramo imobiliário que eu conheço gostaria também.