Nesse filme sobre dois irmãos muito diferentes entre si vemos a história sempre do ponto de vista de Joe, o policial e homem de família interpretado por David Morse, tendo inclusive esse personagem como o narrador no começo e durante as transições de tempo. Porém é no outro irmão, Frank, o rapaz problemático e violento vivido por Viggo Mortensen, que reside toda a força de Unidos pelo Sangue.
O começo do filme, mostrando a vida de Joe em uma cidade pequena e a repentina vinda de Frank depois de ter ido à guerra, leva a crer que estamos diante de um pequeno drama humano e familiar, mas à medida que a câmera de Penn começa a acompanhar mais de perto Frank, percebemos que o filme avança a um desfecho poderoso e sanguinolento, onde muita coisa acontecerá no dia do nascimento do filho de Frank. Não entrarei em maiores detalhes da história para não estragar a experiência de quem ainda não viu este filme, mas é aos poucos que Unidos pelo Sangue mostra ser um estudo sobre a violência, e sobre como apesar das vontades, às vezes, não se pode fugir de sua natureza, não se pode fugir de si mesmo.
Frank tem muito em comum com um personagem que o mesmo Viggo Mortensen interpretaria 14 anos depois, o Tom Stall, de Marcas da Violência, do David Cronenberg, especialmente na tentativa de reprimir a violência dentro de si. Frank se parece também com o próprio diretor Sean Penn. Ele, [/momento fofoca on] envolvido em escândalos no fim dos anos 80 por suas brigas com a namorada Maddona[/momento fofoca off], coloca no filme cenas de Frank batendo em sua mulher, interpretada por Patricia Arquette num visual semelhante com uma certa fase de Maddona. Acredito que Penn conhecia muito bem o personagem que criou e, provavelmente, se idenficava com ele. Talvez seja dessa identificação, jutamente com a ótima performance de Viggo Mortensen, que vem toda a força desse personagem.
Em se tratando de um filme que tem a violência como um dos temas principais é particularmente acertada a escolha de Charles Bronson (neste que é o seu último papel de algum valor. Bronson depois só fez uns filmes para tv e Desejo de Matar 5) para viver o pai de Joe e Frank. Um interessante personagem, interpretado através do Método Charles Bronson(não resisti, desculpem), aquele método que consiste em simplesmente não fazer nenhuma expressão o tempo todo, mas que apesar da incapacidade de Bronson para a atuação acaba rendendo pelo menos duas belas cenas, graças a Sean Penn e a tudo que Kulechov já nos ensinou.
Pode-se dizer que Sean Penn atualmente se encontra no ápice de sua carreira como diretor. Seu novo filme, Na Natureza Selvagem, foi muito elogiado e está cotadíssimo para o próximo Oscar, e ele acabou de ser escolhido como o presidente do júri do próximo Festival de Cannes. Não é por menos, aqui na sua estréia como diretor, Penn já demonstra um grande talento por trás das câmeras, e mesmo se os seus dois filmes seguintes com Jack Nicholson não cheguem a ser excepcionais, é em cenas marcantes (e que a princípio parecem pequenas) sobre personagens presos em si mesmos que Penn se encontra como autor. Como aquele magnífico final de A Promessa, com Jack Nicholson solitário, que mesmo tendo visto na época do lançamento é uma cena que ainda não me sai da cabeça.

|