A terceira coisa mais indesejável que pode acontecer a um ser humano, dentre todas as coisas indesejáveis que existem no mundo, é ter o cérebro devorado por um gato (ter que pagar impostos e bater o cotovelo em uma quina são a primeira e segunda, respectivamente). Para se obter o ranking das coisas indesejáveis, um instituto bastante sério e respeitável realizou uma longa série de entrevistas com uma pessoa. Pois bem....Pois bem. Quanto mais invento gracinhas, menor será a minha capacidade de relacioná-las com o assunto deste texto. Melhor parar enquanto é tempo, como dizia, no leito de morte, o cowboy da Marlboro.
Lúcio Fulci, mestre do cinema fantástico italiano, na maior parte da carreira, fez um cinema indesejável. Pelo menos para os que têm estômago fraco. Rei do gore, as obras de Fulci estão repletas de vísceras, sangue, decapitações, desmembramentos e, principalmente, de foleys. Provavelmente nunca o barulho de um pescoço sendo rompido por um serra elétrica soou tão alto e exagerado quanto nos filmes do italiano. Tais características são o que de mais óbvio pode-se observar na filmografia do diretor. Porque no fundo, Fulci é o rei de um tipo de cinema livre (na mais ampla significação da palavra), visual, primitivo - no sentido de ser instintivo, urgente - apaixonante e que é cada vez mais raro.
Cat In The Brain narra os sofrimentos de um diretor de cinema, interpretado pelo próprio Fulci, que, começa a ter alucinações – que consistem no mais belo e puro exploitation - resolve procurar um psiquiatra. Ele se sente perturbado pelo próprio material que criou ao longo da carreira. A imagem mais forte e que sintetiza o filme é logo a primeira: Fulci, em uma sala mal iluminada, escreve uma cena repleta de desmembramentos e tudo mais. A câmera, que está em plongeè, começa a se movimentar em direção à cabeça do diretor. Entramos em seu cérebro. Lá dentro há um gato, devorando tudo.
Por mais que exista uma grande quantidade de obras que tratam das angústias do artista responsável por comandar um filme – sendo Noite Americana e Oito e Meio os exemplos mais óbvios -, Cat In The Brain é (quase) único. Pelo menos em sua subversão. Sim, porque em uma análise bem superficial, pode-se dizer que este longa-metragem é apenas uma desculpa para o diretor italiano mostrar cenas censuradas de seus filmes anteriores – que são as tais alucinações, afinal. Artifício, vale lembrar, ainda se valendo de uma análise superficial, também utilizado por José Mojica Marins em Delírios de um Anormal , muitos anos antes.
Já em uma avaliação - um pouco - mais aprofundada, o que se vê em Cat in The Brain é o auto-retrato de um artista que sempre esteve à margem do cinema italiano, mesmo o de gênero (Fulci costumava dizer que fazia o mesmo que Dario Argento, mas com muito menos orçamento). Se esta imagem de si mesmo é verdadeira, não se sabe. Mas, o Fulci que vemos na tela é um homem solitário e perturbado, que parece viver única e exclusivamente em função do cinema. O que não quer dizer que o filme não tenha humor. Longe disso. O calvário vivido pelo diretor italiano muitas vezes é engraçado. Por exemplo: O personagem vai a um restaurante almoçar e o garçom lhe oferece um delicioso tipo de carne, justamente depois da última alucinação de Fulci, que mostrava um homem comendo, literalmente, uma mulher.
Mesmo assim, há um certo tom de despedida, que permeia todo o longa-metragem. A imagem de Fulci indo embora, em direção ao mar, dentro de um barco a velas, acompanhado de uma bela mulher, reforça esta impressão (a piada que antecede tal momento parece funcionar como uma tentativa de confortar os espectadores que ficaram assustados com as loucuras do diretor).
Após Cat In The Brain, Fulci ainda realizou três filmes, no ano seguinte, em 1991. Depois, entrou em um ostracismo, que terminou com uma misteriosa morte, no ano de 1996: diabético, aparentemente Fulci esqueceu de tomar, em determinada noite, a injeção de insulina que o mantinha vivo. Até hoje há quem acredite que o diretor deliberadamente não aplicou o remédio.

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