28 de janeiro de 2008

O Segredo da Múmia, de Ivan Cardoso

O conceito da antropofagia assume, neste filme, uma de suas mais brilhantes representações. Misturar toda uma infinidade de lendas estrangeiras (quer dizer, as lendas estrangeiras mais especificamente filtradas pelo cinema americano realizado nos anos 30 e 40 pela Universal e também pelas produções britânicas da Hammer, nos anos 50), de forma genuinamente brasileira, é nada menos do que maravilhoso. Digno de milhões de vivas. Digno de urros de alegria.

Sim, porque O Segredo da Múmia é absolutamente único. Feito noutra época ou lugar, seria completamente diferente (e isso é preciso ser dito, por mais óbvio que pareça). Obra-prima - no seu sentido literal – reconhecida em seu tempo, por quem mais interessa: o público.

Lançado em 1982, o filme fez mais de um milhão de espectadores (e é intrigante pensar o abismo gigantesco, tanto em proposta estética quanto temática, que separa O Segredo da Múmia de Meu Nome Não é Johnny, que, por enquanto, atingiu público parecido). Atualmente, a brilhante estréia de Ivan Cardoso em longa-metragem é praticamente inacessível. Não foi lançado em DVD, os VHS são raríssimos. A única possibilidade é o Canal Brasil. Aí, um grande paradoxo: filme feito para as massas, hoje só pode ser visto em um canal da tv paga.

A importância de O Segredo da Múmia não está somente no fato de ter inaugurado o terrir , designação, que, por si só, não significa muita coisa. Afinal, na mesma época Sam Raimi lançava o seu Evil Dead, em que, indiscutivelmente, há uma mistura de terror e comédia. O mérito, portanto, deste filme de Cardoso não é o de ter inaugurado um sub-gênero cinematográfico, mas sim de ter criado, dentro de uma estrutura formal e temática, um tipo de cinemacheio de segundas intenções.

O uso de elementos do grotesco, representado principalmente pela figura de Igor, um careca ajudante do Professor Vitus – o protagonista – e por mulheres que pouco ao pouco assumem a aparência de lobos, dentro de um cativeiro, é muitas vezes apenas uma desculpa para mostrar nudez gratuita. Afinal, qual é a razão de se interromper uma cena “séria” com o letreiro de “enquanto isso” e cortar para uma cama em que Regina Casé está nua, sendo lambida loucamente por Igor? Ou então, por que as mulheres presas no cativeiro, depois de alguns dias no local, começam a se beijar e a praticar sexo bestialmente? Razão narrativa, no sentido de fazer a história avançar, não há nenhuma. Mas, há a razão estética. Por que o grotesco misturado com o deboche, com a satirização reverencial (é mais do que óbvio que Cardoso ama múmias, cientistas loucos e outras crias do cinema de gênero, por mais que o tratamento dado a estes personagens procure o caminho do escracho), o terror, a comédia e a pornochanchada, resulta em algo que representa plenamente o espírito de um povo (por mais que o conceito de “povo” seja um pouco complicado em um país tão etnicamente diverso como o Brasil) .

O que explica o seu sucesso na época. Nenhum filme exploitation (que basicamente trabalha com os mesmos elementos) de qualquer lugar do mundo se parece com o que Cardoso criou (e é claro que não estou fazendo juízo de valor). Daí o terrir de Cardoso ter realmente importância para a história do cinema brasileiro: na sua forma própria tanto de encenar, como de retrabalhar temas universais, o sub-gênero vai muito além da simples homenagem ou do pastiche - o que seria o mais esperado, dado ao tipo de referências utilizadas pelo cineasta -, para se transformar em algo genuinamente novo.

Novo, anárquico – o preto e branco e o colorido se alternam de forma totalmente arbitrária; o passado é colorido e às vezes o presente é preto e branco – e bastante inventivo na hora de solucionar os galhos exigidos pelo roteiro. Como mostrar a ida do Professor Vitus até o Egito, em busca da múmia que lhe servirá de cobaia para experimentar o elixir da vida? Simples. Pega-se uma foto do centro de Cairo, coloca-se por cima uma legenda escrita “Cairo”, filma-se imagens do Professor Vitus olhando para frente, em algum lugar do Brasil que se assemelhe a um deserto e, no contra-plano, coloca-se alguns stock shots das pirâmides. E então, para mostrar que o professor alcançou seu objetivo, insere-se a imagem de um jornal com a manchete anunciando que a múmia fora encontrada, seguido de um cine-jornal no estilo de News On The March, de Cidadão Kane. Brilhante!