Em uma cena de Celular - Um Grito por Socorro, o herói-por-acaso, vivido por Chris Evans, tenta achar o filho da personagem de Kim Basinger em meio a várias crianças na saída de uma escola. Ela então o avisa, por telefone, que seu filho usa uma mochila com estampa do Senhor dos Anéis e se chama Ricky Martin. Sim, o garoto se chama Ricky Martin, e o nome foi dado antes do sucesso do cantor, avisa ela. Estas duas referências, por mais bizarras que pareçam, são chave para a compreensão do filme que estamos vendo. Um filme pop, comercial, que busca entretenimento, nada mais.
O filme começa com Kim Basinger acompanhando o filho em direção ao ônibus escolar, enquanto ainda rolam os créditos. Menos de um minuto depois já estamos dentro de sua casa, alguns brutamontes a invadem, atiram na empregada, e prendem a bela cinquentona no sótão. Não há em “Celular – Um Grito de Socorro” espaço para epílogos ou apresentações, a ação precisa começar imediatamente. Se em um plano sabemos que a personagem é uma mãe da família, isso já o suficiente para compreender o que o filme quer com essa personagem, e no outro plano a ação já pode começar. Mais uma breve cena de apresentação, do personagem de Chris Evans como um playboyzinho deixado pela namorada, e logo ele já recebe em seu celular a ligação de uma Kim Basinger desesperada. Em menos de 4 minutos já temos todo o conflito do filme apresentado e estabelecido. Aí meu amigo, só resta a ação.
Em geral, no roteiro de Celular nada faz muito sentido. O próprio plot inicial do filme já é bem absurdo: a mulher seqüestrada, mexendo nos fios de um telefone destruído, consegue ligar para o celular de um rapaz, que agora se vê na necessidade de salvá-la. Se Alfred Hitchcock dizia que “a verossimilhança não interessa”, David R. Ellis não deve nem saber o significado dessa palavra. No roteiro, escrito por Chris Morgan a partir de um argumento de Larry Cohen, tudo passa do limite do inverossímil, é um clichê atrás do outro. seguido de um grande absurdo atrás do outro.
David R. Ellis começou em Hollywood nos anos 70 como dublê, depois passou a trabalhar como coordenador de dublês, e mais tarde foi promovido a assistente de direção. Só veio a dirigir seu primeiro filme em 2003: Premonição 2. Um filme bem mediano, diga-se de passagem, mas com uma ótima seqüência de acidente numa rodovia, que já mostrava que Ellis tinha algum talento, pelo menos para cenas de ação e explosão.
Existem outros filmes que brincam com essa inverossimilhança do cinema de ação, porém obras como “True Lies”, de James Cameron, e “Adrenalina”, da dupla Mark Nevaldine e Brian Taylor, levam essa inverossimilhança para um lado de sátira, da comédia. E o filme de David R. Ellis se diferencia desses dois exemplos por, apesar de mostrar o absurdo do filme de ação, querer se situar como um exemplar desse gênero e nunca o satirizar. O olhar de “Cellular” para com o cinema de ação não é de deboche, é mais um olhar de apreço, quase uma ode a esse cinema. É apenas um filme consciente de seu papel. E divertido, como poucos filmes de ação dessa década o são.

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