23 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - Dia 6

Feliz Natal, de Selton Mello

Ao contrário de Mistéryos, exibido na noite anterior, que falhava especialmente na comunicação com o público, aqui, após uma apresentação do personagem principal durante os créditos iniciais, com direito a grua, somos literalmente convidados por um garoto, juntamente com o protagonista, para adentrar a vida dessa família disfuncional.

Vi Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, duas semanas atrás, e me incomoda bastante o fato de em alguns momentos mais densos, a câmera parece se afastar dos personagens. Em Feliz Natal, a câmera está sempre muito próxima de seus personagens, numa influência clara de Cassavetes (como Selton lembrou durante a apresentação do filme), e não os larga mais por nenhum instante.

Essa câmera rente aos personagens surpreende (especialmente para quem viu o horroroso Quando o Tempo Cair, curta-metragem dirigido por Selton Mello, com Jorge Loredo), e rende os melhores momentos de Feliz Natal. É uma opção acertada por este ser, em sua essência, um filme de atores. Se não há espaço em tela para que o espectador respire fora do drama dessa família, os atores parecem livres para improvisos, e é Darlene Glória (a Gena Rowlands de Selton) quem mais brilha neste elenco todo ótimo.

Ainda que em sua parte final Feliz Natal tome alguns rumos que John Cassavettes nunca tomaria, se aproximando de um tipo de cinema mais atual, como o de Paul Thomas Anderson e Lucrecia Martel, está aqui uma grande obra do cinema brasileiro recente, corajoso e autoral, vindo de onde menos se esperava: da maior estrela do cinema tupiniquim dos anos 00 que, como ator, parecia se repetir cada vez mais. Não por menos, Selton Mello anunciou que está abandonando sua carreira de ator, para se dedicar a escrever e dirigir filmes. Vida longa à Selton Mello como diretor!

11 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - 5° Dia

(atualizado - Mistéryos)


A Armada – O Outro Lado do Descobrimento, de Ric Oliveira

Primeiro filme de animação que vejo no festival (infelizmente perdi Dossiê Rebordosa), este curta-metragem de Ric Oliveira poderia ser enquadrado como uma “animação de arte”. Poderia. Mas ninguém vai fazer tal coisa, já que é uma tremenda bobagem ficar enquadrando o que quer que seja.

O fato é que A Armada – O Outro Lado do Descobrimento vai na contra-mão das animações mais comerciais, produzidas pelos grande estúdios norte-americanos. Ao invés de buscar a fluidez dos movimentos corporais, a minúcia das expressões faciais – ou seja, buscar a mimese das peculiaridades do corpo-humano -, o filme vai de encontro ao estático. Os personagens têm pouquíssimos movimentos – a expressividade cabe quase que exclusivamente aos olhos, como nos animes -, assim como o cenário, que na maioria das vezes chega a lembrar a cenografia fixa dos desenhos dos estúdios Hanna-Barbera.

É bastante interessante como esta quase falta de movimento contribui plenamente para a narrativa. Uma vez que os personagens passam boa parte do curta-metragem navegando, todo o tédio causado por tal atividade nos é passado pelo contido movimento dos personagens e do cenário. Ambos se mexem de forma lenta e repetida, quase hipnótica. O belíssimo desenho de som contribui para que a experiência se torne quase sensorial.

Ao final da viagem pelo mar, os portugueses chegam à costa brasileira. Dois deles desembarcam e pisam em terra-firme. Encontram os índios.O que se vê a seguir é uma dos mais interessantes interpretações do que poderia ter acontecido neste insólito momento: completamente estáticos, com a exceção dos olhos, que vão de lá para cá, vemos todo o constragimento dos portugueses. Os personagens se encaram e o tempo se dilata, graças ao simples uso do plano/contra-plano. Como em um filme de Sérgio Leone. De repente, o grito furioso do português...

Wellington Sari


Mistéryos, de Beto Carminatti e Pedro Merege



Havia escrito alguns parágrafos sobre Mistéryos, mas andando de minha casa até o Museu Oscar Niemeyer para o último dia de festival, me peguei pensando algumas coisas sobre este filme, e resolvi então chutar o balde, deletar os parágrafos que já havia escrito e começar de novo o texto com a seguinte frase: O maior problema de Mistéryos está em sua fotografia. (na verdade, eu não comecei o texto com essa frase, como vocês devem ter percebido, comecei com uma história sobre andar até o MON e tal, mas a intenção foi essa. enfim.)

Antes de tudo, vale informar que este filme de baixo orçamento (um milhão de reais, financiado por um edital de cinema do estado do Paraná) foi filmado com câmera Panavision, uma das melhores do mundo, e fotografado por Alziro Barbosa, possivelmente um dos melhores diretores e fotografia do país. Vendo Mistéryos, é impossível negar a plasticidade da beleza de suas imagens. Me pergunto apenas o porque de tudo isso em um filme onde a imagem fica completamente refém do texto em off.

A fotografia aqui não contribui em nada para o desenvolvimento da narrativa do longa (ao contrário, por exemplo, de O Grão, exibido na noite anterior, ou Feliz Natal, exibido na noite seguinte, onde a fotografia está intrinsecamente ligada ao cerne de seu respectivo filme), contribui apenas para a criação de um clima, e ao fim soa apenas como um enfeite de luxo em meio a um filme, cujo roteiro, escrito a dez mãos, falha especialmente na comunicação com qualquer tipo de público.

Tal como no curta-metragem O Mistério da Japonesa, da mesma dupla de diretores, Mistéryos parece respeitar muito Valêncio Xavier, escritor na qual ambos os filmes são baseados. Esse respeito e a tentativa de se fazer uma homenagem ao escritor, como revelou Pedro Merege na apresentação do longa, parece mais prejudicar do que ajudar o filme, e funciona quase como uma camisa de força para a direção e o roteiro. Durante grande parte do filme, é a voz off pretensamente bela que conduz o filme narrativamente, resta às imagens apenas ilustrar o que está sendo dito.

Muitas vezes, as imagens de Mistéryos são redundantes, como as cartelas que invadem o filme, informando coisas desnecessárias. Por que explicitar em uma cartela que estamos em Curitiba ou no Passeio Público, se as locações são em Curitiba, e se depois da cartela do Passeio Público, vemos uma cena que se passa... no Passeio Público? Ou por quê dizer que estamos em 1969 se, logo depois da cartela, uma televisão mostra a chegada do homem à lua? Este aliás, seria um exemplo onde a fotografia poderia ajudar a contar a história, mas o filme se diminui a mastigar essas informações. Pode-se dizer que essas cartelas servem como uma forma de explicar melhor a história ao público, mas contradiz com a vontade dos diretores de fazer um filme artístico. Mistérios fica num meio termo entre o “artístico” e o “popular”, sem nunca alcançar um ou outro

Quando escrevo que o maior problema de Mistéryos está em sua fotografia, digo isso não apenas por causa da fotografia em si, mas por todo o conceito deste filme na qual esta fotografia está inserida. É na fotografia bela, mas antiquada, onde se percebe que a posição de cada refletor foi muito bem pensada, que Mistéryos se revela um exercício masturbatório. Todos os envolvidos no filme parecem ter gostado demais do resultado, e o esforço dos profissionais envolvidos é notável, faltou apenas um convite ao público para adentrar esse mundo de Valêncio Xavier.

Christopher Faust

10 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - 4° Dia

Ismar, de Gustavo Beck

Uma pequena jóia entre mais um dia de curtas ruins. A partir de imagens de arquivo pessoal, em especial de programas de TV, o filme nos apresenta Ismar, um garoto que sabe de tudo sobre cinema hollywoodiano, ele vai ao programa do Jô, e participa de uma espécie de quiz show, onde tem a chance de ganhar uma sonhada viagem a Hollywood, caso acerte todas as perguntas. Esse programa é o grande achado do curta, quase surreal pela forma como explora o menino, em certos momentos faz até parecer que é tudo encenado e estamos vendo uma ficção. O que seria tão genial quanto esse filme já é.

Paralelo a isso, vemos também um jovem em meio a penumbras, computadores no escuro, e refletores de luz. Depois que o programa de TV chega ao fim, com o menino Ismar perdendo a chance de visitar Hollywood e chorando num programa ruim, o jovem em meio às penumbras é revelado e vemos Ismar hoje, barbudo, fumando, bebendo, cantando numa banda de rock.

A música de sua banda de rock hoje, e logo depois o menino Ismar cantando a música de algum filme hollywoodiano ruim no programa do Jô. É o presente confrontado com o passado, que diz absolutamente tudo sobre Ismar e sua trajetória de vida.

Christopher Faust


Fly, de Márcio Salem

"Voa, Diogo, voa...", Caco Ciocler interpretando Caco Ciocler, numa filosofia de jovenzinho publicitário de extremo mau gosto. O horror, o horror....

Christopher Faust


Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo, de Emillio Gallo



O documentário do jornalista Emillio Gallo resume-se a uma imagem: uma porção de celebridades globais (da qual se destaca Letícia Sabatella, a mais linda atriz de todo o mundo) dando autógrafos, em meio à população de Rio Maria, no Pará, que faz um protesto contra a ação dos assassinos de aluguel que matam figuras socialmente importantes da região. As celebridades estão lá, com faixinhas na cabeça e tudo mais. A presença delas adianta à causa? Obviamente não. O próprio documentário mostra que o índice de assassinatos diminuiu muito pouco depois do movimento. Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo nada mais é do que uma tentativa barata e superficial de resolver um grave problema com a imagem (assim como fazem as celebridades).

Não é o cinema quem tem de resolver algo desse tipo. Tal função cabe à outras instâncias. Não é o cinema quem tem de fazer um “documentário investigativo”, como se auto-intitula o filme. Investigar é função dos detetives. Talvez dos jornalistas desesperados. O cinema tem de se preocupar com a forma. Tudo o que o longa-metragem de Gallo não faz é se preocupar com a forma. O que se vê na tela é um desleixo formal completo (inclusive técnico, o que me fez pensar, em diversos momentos, que o filme foi exibido sem estar finalizado), em que reinam as más composições dos planos, o péssimo uso da música e o maldito uso abusado do depoimento. Por que tanto interessa a certos documentaristas a fala das pessoas? Não há mais nada que se possa apreender delas? Gallo, pelo jeito, acha que não.

O que sobra de Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo é um monte de nada. Ou então,um documentário mal realizado, com caráter de denúncia, que, fatalmente, vai se resultar infrutífera, repleto de depoimentos. O que este filme está fazendo em um festival de cinema?

Wellington Sari

9 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - 3° Dia

(atualizado - [colorado esporte cluBE] e Fronteira)

Neste terceiro dia de festival, em meio a risadas contidas durante o filme argentino As Mãos, me veio a cabeça algo que Kleber Mendonça Filho escreveu sobre o Festival de Gramado esse ano, e que pode também ser observado sobre este Festival do Paraná.

Festivais como esses dois, grandes, um já consolidado e outro em busca de consolidação, abrem um importante espaço para uma primeira entrada de filmes de alguns países da América Latina no Brasil, dando visibilidade a eles e até uma chance de quem sabe
conseguirem uma distribuição no país. Porém, a escolha dos filmes latinos em competição parece muito fraca e não condiz que os verdadeiros filmes importantes feitos em países como a Argentina, por exemplo. O que tem se visto até agora neste Festival do Paraná dá a impressão de ser apenas o lado b do lado b da produção argentina. Villa e As Mãos tomam um espaço que poderia ser ocupado pelos novos filmes de Lucrecia Martel, Pablo Trapero e Lisandro Alonso, para dar alguns exemplos.

Não dá para entender que um festival que se orgulhe de dar grandes prêmios em dinheiro para os longa-metragens, não tenha convidado esses filmes, com tanta relevância no cenário do cinema mundial, para se inscrevem na competição oficial. Se convidaram, é uma pena que não tenham aceitado. A presença desses filmes, e desses cineastas, seria muito mais interessante e proveitosa a todos.


Christopher Faust

Solitário Anônimo, de Debora Diniz

Esta é a segunda vez que vejo o curta-metragem de Debora Diniz. Algumas coisas que antes me haviam encantado, desta vez pareceram bastante questionáveis. Não sei exatamente por que isto foi acontecer. Talvez, o fato de eu ter lido o livro Como Fazer Corretamente e de Forma Segura Um Filme De Documentário, de Ibsen Mamoulian, tenha contribuído para a mudança de percepção que tive do filme. Mentira. Esse livro, obviamente, não existe. Muito menos o autor.

O fato é que Solitário Anônimo, em diversos momentos, é bastante contundente. Sua principal força está em determinadas situações, que conseguem ser captadas pela câmera, vividas pelo “personagem peculiar” – há praticamente um sub-gênero dentro do cinema documental que trata de pessoas marginais, sendo Estamira o exemplo recente dos mais marcantes. Felizmente, aqui, ao contrário do filme de Marcos Prado, o personagem é lúcido e tem plena consciência do que foi feito com sua imagem. O problema é que, para a câmera estar presente nas tais situações (bastante dramáticas, poderia se dizer), como na que o “personagem” recebe uma sonda pelo nariz e, principalmente, no momento em que uma equipe de TV, com todo o aparato técnico, entra no quarto de hospital em que está o homem, Debora também precisa invadir a vida do solitário-que-não-quer-ser-incomodado.

Assim como a sonda hospitalar literalmente invade o corpo do velho e, a imprensa, com a voracidade em apurar informação, invade o direito seu direito de se manter anônimo, a cineasta, com a vozinha de anjo em que pergunta “o Sr. quer morrer? O Sr. queria estar aqui neste hospital?”, única e exclusivamente para obter as respostas que lhe interessam, ultrapassa um certo limite da vida privada do “personagem”. Mesmo que, ao fim do filme, a diretora escolha mostrar o homem já recuperado e completamente lúcido, nos dando a entender que ele autorizou o documentário (não há como saber em que circunstâncias isto aconteceu), fica a impressão de que os meios são bem menos humanistas que os fins pretendidos por Solitário Anônimo.

Wellington Sari

[colorado esporte cluBE], de Fábio Allon


Tendo visto este curta mais de uma vez, é surpreendente que ainda me seja um pouco difícil escrever sobre. Talvez isso aconteça pelo fato de ser colega de Allon, ou por ele ser muito maior do que eu e, por isso, um soco dele, caso não gostasse do que fosse escrito por mim, tivesse grande potencial destrutivo (claro, não há como não assumir completamente um tom pessoal ao falar de [colorado esporte cluBE]). Nada a ver. O Allon não é um cara violento, ao que me parece.

Determinadas opções estéticas em [colorado esporte cluBE] – como o recorrente uso de fusões de curta duração entre os planos, que causam um certo amortecimento da passagem do tempo, e o belo uso do som não-sincronizado – são exemplos de que Allon seguiu um determinado conceito formal e nele permaneceu durante todo o filme (que em torno de quatro minutos). Goste-se ou não do curta, é inegável que ele tem uma “cara própria”.

Foi interessante tê-lo assistido mais de uma vez, já que anteriormente, durante a projeção, me sentia incomodado pelas constantes mudanças de ângulo da câmera, que parecia estar procurando de forma quase aleatória um lugar que permitisse melhor observar as ações do personagem. Eu sentia falta de planos mais longos, que fizessem por eles escorrer o tempo. Mas isso é bobagem. Hoje percebi que Allon achou uma maneira muito mais interessante de alterar a percepção que o espectador tem do tempo (utilizando as tais pequenas fusões).

O uso do texto verbal é outro grande mérito do curta: havia mil maneiras de utilizar a “fonte original” do filme (um conto de Adriano Esturilho). Allon escolheu a mais simples, portanto, a melhor.

[wellington saRI]

As Mãos (Las Manos), de Alejandro Doria


Quem achava que a pior coisa a ser vista neste festival seria Luchador, estava muito enganado. Mas, ao contrário do curta-metragem, cujo nível de ruindade atingia picos por causa de uma certa incompetência do diretor e roteirista, aqui Alejandro Doria parece saber exatamente o que quer, o que torna seu filme ainda mais desprezível. Pior, este é um longa, são 119 minutos de tortura.

Quase não tenho palavras para descrever este filme, que mostra que não foi apenas a comissão de seleção dos curtas que resolveu fazer piada de mau gosto com o público, mas a de longas também. Tudo em As Mãos é ou clichê ou de extremo mau gosto, além de ter um roteiro com uma filosofia imbecil e ultrapassada. Começo aqui, aliás, uma campanha para que este diretor nunca mais chegue perto de uma câmera novamente, o bem da humanidade está em jogo.

O protagonista do filme é um padre, que tem o poder de curar doenças e efermidades com suas mãos. Simples assim, e ele leva isso numa boa, o diretor também, como se tudo fosse algo muito comum, mesmo em seus momentos mais X-Men ou Al Gore. Não se trata aqui de não acreditar que algo assim possa existir, isso é irrelevante, trata-se de uma exploração ridícula do tema, raso ao explorar qualquer conflito e na escolha dos conflitos a serem explorados. Qualquer filme de super-herói faria isso melhor, peguem o péssimo O Quarteto Fantástico, por exemplo.

Daí o filme segue numa jornada do padre contra tudo e contra todos, incluindo aí a polícia e certa parte da igreja, para que ele possa seguir curando pessoas. As Mãos segue o manual de roteiros, e a principal referência parece ser Patch Adams, O Amor é Contagioso, de Tom Shadyac (que já fez grandes comédias, diga-se de passagem, Ace Ventura e O Mentiroso não me deixam mentir), só que mais bitolado. Muitos zooms constrangedores depois (a questão do travelling de Kapò, poderia ser discutido aqui, aliás), temos uma cena que já nasce antológica. O padre entra pelo matagal, à noite, sob a luz do luar, numa bela fotografia, e resolve ver uma radiografia sua. Brilhante.

Christopher Faust

Fronteira, de Rafael Conde

Objeto estranho este Fronteira. Não entendi, nem sei se gostei ou não, sei porém que está muito longe de ser um grande filme e que o diretor deve gostar muito de Lavoura Arcaica. A fotografia, as atuações teatrais e o texto literário demais lembram os trabalhos de Luiz Fernando Carvalho, mas sem uma homogeneidade entre o todo. Oscilando entre o gênero fantástico e o filme de época, as pretensões de Rafael Conde parecem obscuras na névoa das montanhas de Minas.

Christopher Faust

8 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - 2° Dia

Entre Cores e Navalhas, de Catarina Accioly e Iberê Carvalho

Aqui está um exemplar interessante do cinema de fragmentos (algo que começou lá nos anos 60 e que hoje em dia é quase requisito obrigatório para um “filme de festival”). Entre Cores e Navalhas é interessante porque, a bem da verdade, não é tão fragmentado assim. Narra pequenos instantes das vidas dos seus personagens, mas sem – pelo menos na maioria das vezes – perder de vista o potencial dramático da história de amor entre o cabeleireiro e a cobradora de ônibus da história. Afinal, muitas das vezes é este o defeito de certos filmes de fragmento: as ações são mostradas já no seu andamento, deixando de lado o caminho que teve de ser percorrido para que se chagasse naquele determinado ponto. Sendo que, não é raro, é neste caminho em que se encontra o interessante, o inusitado, a novidade, as emoções, o drama etc.

O curta-metragem de Catarina Accioly e Iberê Carvalho, com sua divisão estrutural em pequenos blocos, separados por fade outs e telas pretas lembra o Jim Jarmush de Estranhos No Paraíso e Dawn By Law. Mas isso não quer dizer que os cineastas simplesmente repetem esta estrutura à maneira do cineasta norte-americano (como faziam os dois curtas do dia anterior, no Festival). Aqui este recurso é utilizado de maneira bastante própria, ideal para servir a esta narrativa que suscita longas elipses temporais.

Como já disse, só há um ou outro momento em que aparentemente aquilo que é mostrado é um pouco menos interessante do que é deixado de fora. A mim interessaria muito ver, por exemplo, qual seria a reação da cobradora de ônibus ao ver pela primeira vez a transformação sofrida pelo cabeleireiro, ao invés momento mostrado no filme, em que claramente os dois já passaram um bom tempo juntos. Não que eu esteja aconselhando os cineastas, ou dizendo como deveria ser o filme deles. Isso Truffaut já condenou como algo completamente patético. E eu não sou louco de contrariar o homem que fez Beijos Proibidos.

Wellington Sari


A Espera, de Fernanda Teixeira

Fiquei impressionado quando ontem achei uma página sobre o curta Luchador, que o definia como um “curta metragem sobre a solidão”. Tá bem, então. A Espera, de Fernanda Teixeira, pelo menos tem muito mais consciência do que pode ser um filme sobre solidão e de como filmar isso. O resultado é interessante, ainda que não seja necessariamente bom.

O filme mostra o cotidiano de um velho homem, que espera sua morte. Ele vive sozinho, apenas com seu cachorro, em uma casa imensa. Com planos longos e lentos movimentos de câmera, vemos a rotina desse personagem, que, entre outras coisas, dá comida ao seu cachorro, olha os obituários nos jornais, limpa e lustra um caixão e lê Cem Anos de Solidão. Uma referência meio óbvia, onde o curta vai calcar todo seu enredo. Na primeira vez que o velho aparece lendo o livro, o plano que dá mais atenção a sua referência do que a ação da cena em si. Teixeira se apóia muito em Garcia Marquez para mostrar o que quer.

Depois de muito tempo vendo o velho em sua rotina, acontece algo, e o final é trsite, mas ao mesmo tempo parece uma sacada engraçadinha. Estranho, talvez bom, não sei. Só sei que agora tenho certeza que filmes sobre solidão não são para mim. Talvez por isso eu nunca tenha gostado de Antonioni.

Christopher Faust

7 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - 1° Dia

Começamos no blog a cobertura do Festival (como, a guisa de abreviação, chamamos o evento por aqui). Postaremos textos sobre os longas e os curtas-metragens em competição, sempre ao fim de cada dia. Eventuais entrevistas com realizadores também podem aparecer.

Pornographico, de Paula Gomes e Haroldo Borges

Há toda uma tentativa de arquitetação estética e temática, além de uma certa utilização de signos, que tentam fazer deste curta-metragem algo pertencente a um outro tempo, a um tempo passado. Desde a premissa – um projecionista, já idoso, de cinema pornô que tem saudades do período em que exibia na salas os filmes do cinema clássico norte-americano - , ao uso da música orquestrada, a uma mise-en-scene de movimentos de câmera pretensamente suaves, fica claro que Pornographico é nostalgia pura. Nada contra nostalgia (apesar da frase do genial Stanislaw Ponte Preta, que diz: “voltar é morrer um pouco”), tudo contra a nostalgia doentia, moralista e tão ingênua ao ponto de ser absolutamente constrangedora.

O filme, inteiro com o voice over do protagonista atormentando os nossos ouvidos, tem aquele papo quase fascista de De Niro em Taxi Driver (limpar a sujeira das ruas, acabar com a escória etc) e o idealismo tonto que nem os filmes clássicos norte-americanos possuem (“a magia do cinema”). Ou seja algo preocupante e/ou risível. Nada pior do que utilizar signos já muito batidos, como a chuva ou um vestido branco, de forma batida, sem qualquer tentativa de re-significação, já que o resultado disso é aquela sensação de “será que o filme tá levando a sério isso mesmo? jura que não é uma paródia?”.

O grande exemplo está na cena em que uma personagem feminina entra em cena em câmera lenta, usando um vestido branco (a voz em off não nos deixa esquecer deste detalhe), banhada pela chuva, ao som de algo parecido com um bolero. Parece haver aqui uma pequena aproximação ao estilo de Wong Kar Wai. Fracassada, já que o resultado lembra algo dos irmãos Zucker (o que neste caso não é um elogio, já que Pornographico não é uma comédia).

O festival começou de maneira bastante decepcionante. Nada que não pudesse melhorar, como nos mostrou o terrível Luchador.

Wellington Sari


Luchador, de Juliano Luccas

O dia de abertura da mostra competitiva de curtas-metragem do Festival pareceu uma espécie de homenagem constrangedora ao universo scorsesiano. Pornographico decalca Taxi Driver e Luchador empresta de Touro Indomável. Ambos utilizam explicitamente (mas sem jamais admitir de forma clara, como faz, em um exemplo ligeiro, Tarantino com os cineastas que idolatra) signos e temas do diretor norte-americano. O curta-metragem dirigido por Juliano Luccas, que narra a história de um lutador clandestino perdedor, em diversos momentos, utiliza a iconografia cristã apenas para se parecer com Scorsese. Assim como em Pornographico, as influências – estéticas, temáticas etc – são utilizadas como um fim e não como um meio. Não há porque elas estarem ali.

Luchador é um filme que se utiliza do próprio cinema para construir o seu mundo (Pornographico também, mas em um escala um pouco menor), por isso o diretor não pára em Scorsese (considerado como um exemplar do bom cinema norte-americano) e vai até os filmes vagabundos de artes marciais. Mais especificamente: vai até Leão Branco, o Lutador Sem Lei, de Sheldon Lettich, com nada mais nada menos do que Jean-Claude Van Damme. É daí que Luccas retira a matéria-prima para construir o roteiro, os personagens e seus arquétipos e a cenografia do seu filme. Há porque, em um curta-metragem, feito no Brasil, chupar um filme do Van Damme?

O que esse curta-metragem quer dizer? Pode-se sugar sim e não necessariamente um filme precisa dizer algo (isso fica para os comentaristas de futebol). O problema é que – ajudado por graves problemas de direção, que faziam a platéia rir em momentos que se pretendiam densos – dessa combinação toda fica quase impossível extrair algo bom. Luchador parece uma grande piada de mau gosto, selecionada no Festival apenas para pregar uma peça em todo mundo. Pena que isso é bem pouco proveitoso.

P.S: Adoro filmes de artes marciais vagabundos e adoro Leão Branco, o Lutador Sem Lei.

Wellington Sari


Pachamama, de Eryk Rocha

Depois de dois curtas-metragens pavorosos, este documentário de me pareceu uma escolha bem mais feliz para o dia de abertura de um festival que é Brasileiro e Latino no seu título. Pachamama é sobre uma viagem do diretor e sua reduzida equipe para Peru, Bolívia e uma certa região do Brasil.

Sendo esse já o terceiro longa-metragem de Eryk Rocha que assisto, fica cada vez mais claro que estamos diante de um diretor com idéias interessantes e muitas boas intenções, mas que ainda não conseguiu chegar a um resultado final no nível de sua pretensão. Rocha que Voa continua sendo seu melhor trabalho, talvez por ser um filme mais pessoal, enquanto seu outro longa Intervalo Clandestino é uma boa intenção jogada no lixo. Ainda, este é um cineasta que se acha mais importante do que realmente é, talvez por seu engajamento político ou por ser filho de quem ele é, e essa sua auto-importância transparece na forma de seus fillmes.

Logo no começo, uma voz off do diretor, que logo me remete a O Fim e o Princípio, do Eduardo Coutinho, explica que este é documentário cujo seu roteiro é o trajeto do diretor e sua reduzida equipe. Neste começo, e durante boa parte do filme, vemos paisagens, em alguns belos planos, de dentro de um carro, a câmera como se fosse a janela de um carro para esses países. Eryk Rocha, ao mesmo tempo que explicita a estrada como roteiro de seu documentário, mostra que seu olhar na verdade é um olhar urbano para esse mundo latino, do qual o diretor não faz verdadeiramente parte, mas apesar de se interessar muito nele. É um olhar fácil, a câmera em uma situação confortável, cineastas dentro de um carro fazendo belas imagens, e a latino-américa lá fora.

Não por menos, é quando o filme vai para Bolívia, larga um pouco a idéia de um documentário-trajeto, e finca o pé numa situação específica, que Pachamama toma força. Raízes latino-americanas tomam vida à tela, agora próximas à câmera, Eryk Rocha, agora fora de seu carro e sem nenhuma linguagem mais experimental, talvez até forçado pela situação ao seu redor, presencia calorosos debates políticos, pessoas engajadas demonstrando seu engajamento à flor da pele. E fez, enfim, o público do festival pulsar a América Latina, por alguns poucos minutos. Deve ter deixado, ao menos, os organizadores e boa parte da platéia, felizes.

Christopher Faust


Villa, de Ezio Massa

E a Argentina também tem seus filmes de estética publicitária sobre favela. incrível! Villa exala uma clara influência de videoclipes (aliás, o filme pára pelo menos duas vezes para o uso de músicas) e do cinema de Iñarritu, no sentido ruim.

Ezio Massa não sabe o que é um tripé, filma tudo com uma câmera na mão sempre irritante, que não se inquieta em nenhum momento. Fica a impressão também de ter sido filmado com várias câmeras simultaneamente, uma mania atual que parece se espalhar cada vez mais, usada muitas vezes sem propósito (como em Villa) e até em cenas simples de diálogos entre dois personagens, transparece apenas uma preguiça por parte de um diretor que parece não se preocupar com decupagem. Pior é que aqui, ao contrário de um Linha de Passe ou Blindness, não há Fátima Toledo para preparar o elenco ou Ezio Massa não é diretor de atores tão bom quanto Fernando Meirelles, e o elenco caricato prejudica bastante o resultado final.

Os créditos revelam três nomes assinando a montagem de Villa. De fato, talvez esteja aí o maior problema da película, uma montagem perdida, especialmente quando explica com rápidos flashbacks pormenores do roteiro ou, quando no clímax final, se enrola para contar as histórias paralelas, sem muito conseguir sair do lugar, com planos detalhes que parece querer tentar levar o público a pistas falsas, mas mostra ser apenas um amadorismo de direção mesmo. Massa quis criar um clímax final com ápices para cada personagem, remetendo a um Crash: No Limite ou Magnólia, porém esqueceu de criar mais do que três personagens. A montagem videoclíptica publicitária não sustenta os parelelos.

Considerando que todos esses problemas partem de um roteiro que não sabe onde quer chegar, e que o filme tem vários planos tortos (e todos sabem que 99% dos filmes que tem planos tortos são ruins), estamos diante de um filme argentino que não precisava ter chegado no Brasil. Enfim, esperemos por dias melhores.

Christopher Faust

1 de outubro de 2008

Meus Vizinhos São um Terror, de Joe Dante


Há muito havia visto este filme, na sessão da tarde, como quase todo mundo. Foi interessante retornar a ele tanto tempo depois. Em Meus Vizinhos São um Terror, Joe Dante seleciona um ponto bem específico e limitado do globo (literalmente: na abertura do filme o logo da Universal começa a ganhar um zoom, até a câmera chegar a uma rua): um típico subúrbio norte-americano. É dali que o cineasta irá colherá o seu objeto de estudo.

Assim como se pode dizer que Hitchcock, em Janela Indiscreta, faz uma análise dos relacionamentos amorosos à partir de um condomínio de prédios, Dante estuda as idiossincrasias do suburbano (não é a toa que o título original do filme é The Burbs). As premissas de ambos os filmes são parecidas: homens que, por algum motivo, precisam deixar de ir trabalhar e ficar em casa, tem a curiosidade atraída por um evento excepcional. Também em ambos os casos, os protagonistas tentam provar que há algo “errado” perturbando a calmaria da comunidade em que vivem (naquele, James Stewart tenta provar que seu vizinho matou a esposa, neste, Tom Hanks comanda um grupo de pessoas que tenta provar que uma família recém-chegada na vizinhança é composta por loucos e assassinos) . Só que, enquanto no longa do diretor inglês o espectador logo fica sabendo que há de fato algo errado acontecendo, em Meus Vizinhos São um Terror o “jogo de esconder” é mantido até o final.

O filme também guarda algumas semelhanças com Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton. Ambos tratam da dialética subúrbio/lugar obscuro. Há, nas duas obras, uma comunidade aparentemente feliz e normal e há uma casa em que coisas estranhas acontecem. A “casa estranha” de Burton fica geograficamente acima do subúrbio, a de Dante fica completamente dentro. Os dois lugares obscuros, habitados por pessoas que não são normais (ou seja, iguais as que vivem nos subúrbios) servem, no fim das contas, para revelar a verdadeira natureza dos suburbanos: pessoas cruéis, egoístas e fúteis (há, em Meus Vizinhos São um Terror uma cena em que Hanks, em um tipo de histerismo corporal que infelizmente o ator abandonou no decorrer da carreira, diz aos suburbanos que são eles os estranhos e não os moradores do “lugar obscuro”).

É uma pena que Dante, ao contrário de Burton, não teve coragem de ir até o final com esse discurso. O desfecho de Meus Vizinhos São um Terror é absolutamente decepcionante. Deveria ter sido separado do todo, com uma ferramenta afiada, e depois enterrado para sempre. Exatamente como fez o vilão de Janela Indiscreta com a esposa.