30 de dezembro de 2009
Efeitos da Cobertura sobre a Mostra Avec 2009
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Wellington Sari
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20:05:00
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24 de dezembro de 2009
Mostra Avec 2009 - Parte 3

Fotograma de Devoção, de Geraldo Pioli
A boa onda local?
Há uma grande falta de se pensar cinema no atual cenário paranaense, perceptível nessa Mostra Avec não somente na grande maioria dos filmes exibidos, mas também na própria (falta de) curadoria. Poderia se pensar em diferentes critérios para a escolha destes específicos curtas para uma mostra, mas a verdade é que nenhum deles fará sentido. Se falou numa seleção que primou pela diversidade (claro, sempre com privilégio a algumas figurinhas carimbadas), mas talvez a única desculpa que seria mais sensata para essa seleção seja a aleatoriadade. Fico imaginando que se jogássemos todos os curtas paranaenses dos últimos três anos pro alto e escolhêssemos aleatoriamente 20 filmes, o negócio poderia fazer um pouco mais de sentido. A média de público, de 10 a 15 pessoas por dia, demonstra a falta de apelo do evento.
É difícil escrever sobre essa mostra justamente porque ela parte de uma visão nula de cinema, e os filmes, que já mal incitam pensamentos, ficam ainda mais perdidos no meio destes outros. Ao escrever, não há muito o que refletir, apenas constatar a mediocridade das obras exibidas. Nesse texto serão citadas algumas delas.
Começamos com Venha Ver o Pôr-do-Sol, de June Meirelles. Adaptado de um texto da Lygia Fagundes Telles, conta a história do encontro de um casal de ex-namorados num cemitério. Com uma grande dose de generosidade no olhar, até poderia se tentar associar as intenções do curta com a de um Lavoura Arcaica, pelo texto extremamente literário ou pelas atuações exageradas, mas isso seria simplesmente não notar a completa incompetência da diretora. O “filme” pode ser descrito como um registro filmado de atores de teatro declamando um texto literário. Percebe-se a decupagem não pensada, e o único motivo plausível para a câmera estar ligada, e posicionada onde está, é para que um filme (financiado com verba pública) exista. Mas que filme é esse? Para quê esse filme?
Além disso, o curta começa e termina com uma narração off, que aparenta ser tirada literalmente do texto do qual é adaptado. Muleta comum no cinema local, ainda mais quando adaptada de escritores paranaenses, caminho fácil em busca de uma legitimidade artística, já muito bem apontada por Wellington Sari na primeira parte da cobertura.
Outros filmes da mostra também se apoiam em narração off, seja flertando com gêneros, em resultados muito duvidosos mas que ao menos esboçam uma tentativa de mise-en-scene, como o noir em A Filha do Chefe, de Antonio Marcos Ferreira; e o western em Esmarteza, de Pedro Merege; ou ainda em Ermos Argênteos, de Josiane Orvatich, espécie de Mapa Imundi da nova geração, filme obcecado em demonstrar a todo custo sua compreensão sobre cinema. Mas é Em Busca de Curitiba Perdida que consegue a proeza de levar essa muleta às últimas conseqüências.
O curta de Estevan Silveira (que já havia adaptado Dalton Trevisan, juntamente com Beto Carminatti, em A Balada do Vampiro) é a redundância em forma de filme. Temos em primeiro plano a narração off, seguindo letra por letra o conto de Dalton, e em segundo plano a imagem, que apenas reitera tudo o que é narrado. A narração menciona meninas num bar, temos a imagem de algumas meninas num bar, a narração menciona gatinhos brancos na janela e, adivinhem só, temos a imagem de um gatinho branco numa janela. Há ainda num terceiro plano a música, que apenas acompanha o filme, acrescentando nada, tentando dar uma coesão a tudo, mas conseguindo apenas aproximar o curta de uma propaganda do governo de Curitiba. Impressão essa corroborada também pela fotografia “perfeita” de Alziro Barbosa***, excelente fotógrafo técnico, mas que parece engessado pelos diretores com quem trabalha (ou seria o diretor de fotografia que engessa os diretores?), e pela própria encenação do que é narrado, tudo limpo, belo e clean demais. Talvez a Curitiba perdida de Silveira seja a Curitiba das propagandas de governo, em seu filme até as prostitutas do centro podre da cidade são belas e bem arrumadas.
Os veteranos Geraldo Pioli e Nivaldo Lopes, duas figuras carimbadas, deram as caras na mostra com seus mais recentes trabalhos. São décadas no ramo que só provam que o tempo pode nada ensinar a algumas pessoas. Impressiona a inocência de seus filmes na tentativa de busca a um certo tipo de “cinema popular paranaense”.
O curta de Nivaldo Lopes, Senhor, Tende Piedade de Mim, premiado no Festival de Maringá de 2008 (misteriosamente o único festival que seleciona e premia os curtas do diretor), não passa de uma piada de mau gosto mal filmada, envolvendo masturbação e pêlos em sovacos femininos, num esforço para arrancar risadas dignos dos últimos filmes do Eddie Murphy. A cópia em 35mm do curta, que no primeiro plano já evidencia uma porca captação em digital, sugere que estamos num lugar onde a imagem, novamente, é nada. Interessa contar uma história engraçadinha, mas nem isso se consegue. A narrativa segue aos trancos e barrancos até seu final-piada.
Devoção, de Geraldo Pioli, é outro que falha em sua narrativa. Vejamos os acontecimentos do filme: Um padre prega numa igreja, com planos e travellings que o engrandecem, seguidos de planos de fiéis o ouvindo, enquanto duas meninas em uma casa assistem tv e conversam sobre novela com diálogos absurdamente inverossímeis para meninas de sua idade. No meio disso, um plano de um velho saindo de uma casa parece induzir a mais um personagem importante, mas logo o velho entra na igreja e some do filme. Começa a chover muito forte, uma das meninas vai até a porta de sua casa e diz “olha amiga, está chovendo!”, a cada raio que cai o padre olha para a janela da igreja, há uma ponta engraçadinha do diretor e, por fim, após mais alguns raios na igreja, o padre tropeça e cai. Créditos finais, nada faz sentido.
Há ainda O Cortejo, de Marcos Sabóia e Joba Trindade, diretores estreantes, que parecem seguir o legado desse cinema. A trama engraçadinha se orgulha de não usar diálogos, mas não tem vergonha nenhuma de ter uma música ditando o ritmo e as emoções o tempo todo. É bem mais consciente e funcional que os curtas de Pioli e Lopes, mas uma cria deles. A tentativa de ser popular, e do uso de tramas paralelas, não esconde uma grande breguice e cafonice levada a sério na busca por uma beleza plástica. O uso do 35mm, recorrente em vários dos cineastas locais da "velha guarda" (que, muitas vezes, parece também usado apenas para legitimar as obras), vai contra o filme e dá a ele um ar de ultrapassado, de velho. É um curta que talvez faria sentido uns 20 anos atrás.
Semana passada a Gazeta do Povo, mais importante jornal local, publicou generosa matéria sobre 29 longas no estado, recentemente finalizados ou em produção. Se a quantidade impressiona, e é bom que se esteja produzindo tanto, é momento de começar a analisar melhor essa produção, pensar os filmes e relevar o que há de realmente interessante, ousado e/ou incitante nessa lista e no que está por vir. Ou basta apenas se produzir e criar um mercado? Afinal, se o mais importante cineasta que há no Paraná se chama Marcos Jorge, é porque as coisas ainda não estão tão bem.
P.S: Vale citar a iniciativa da Mostra Juliette, ocorrida no último dia 12 de dezembro. Ainda que com uma seleção irregular, teve boa parte de sua programação composta por curtas paranaenses (a maioria de alunos ou ex-alunos da FAP/CINETVPR), alguns deles muito bons. Destaque para Silêncio e Sombras, Oscar 07/02, Pastoreio e O Muro.
*** - ERRATA: o diretor de fotografia de Em Busca de Curitiba Perdida não é Alziro Barbosa, mas sim Rubens Eleutério.
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Christopher Faust
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04:07:00
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15 de dezembro de 2009
Programa Duplo


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Wellington Sari
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18:48:00
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1 de dezembro de 2009
Mostra Avec 2009 – Parte 2

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Wellington Sari
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20:21:00
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28 de novembro de 2009
Mostra Avec 2009 – Parte 1
Fotograma de Booker Pitman, de Rodrigo Grota
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Wellington Sari
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15:40:00
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13 de novembro de 2009
2012, de Roland Emmerich
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Wellington Sari
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10:15:00
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6 de novembro de 2009
Uma Pincelada sobre Argento
Jean Douchet falava em uma crítica atenta às questões de “dramaturgia plástica do cinema”, em oposição à “dramaturgia literária do cinema”. Qualquer filme de Dario Argento parece um convite à aplicação primeiro módulo. Ver seus longas-metragens e querer enxergar apenas personagens, tramas, motivações psicológicas, enfim, tudo aquilo tomado da literatura e utilizado para se analisar cinema – processo este que pode se dar tanto na academia quanto na conversa de boteco, passando pelos cadernos culturais dos jornais – é frustrante. Algo lógico, afinal, em Argento não existem personagens, mas figuras; pontos de partida, ao invés de tramas; movimentos necessários, no lugar de motivações psicológicas.
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A foto no topo do post também foi retirada de Tenebre.
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Wellington Sari
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01:05:00
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2 de novembro de 2009
Anticristo, de Lars Von Trier
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Wellington Sari
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16:47:00
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16 de outubro de 2009
Distrito 9, de Neill Blomkamp

O grande problema de parte destes filmes de ficção que buscam um “efeito de realidade” adotando a estética de um tipo de documentário, geralmente aquele mais próximo ao jornalismo, é que não conseguem lidar com a narrativa sem ter de romper – de maneira dissimulada, muitas vezes – com o conceito inicial. Distrito 9 começa com o personagem Wikus (Sharlto Copley) preparando-se para dar uma entrevista. Passam-se alguns minutos, em que a trama, seguindo os moldes didáticos de um Discovery Chanel, é explicada.
Não demora muito para que Blomkamp abandone este modelo – com eventuais retornos – e parta para a ação ininterrupta. É aí que o diretor parece dissolver Blade Runner – a flor de lata –,passando por Eu, Robô e chegando em Transformers. Ou seja, a receita para um sci-fi-humanista cheio de corre-corre.
Se existe algum interesse no longa, são naqueles primeiros minutos, em que ainda um mínimo (mínimo!) de novidade no tratamento do velho tema da invasão alienígena aparece. O inconveniente é que há uma desesperada vontade de conferir a Distrito 9 uma relevância social. Desesperada porque a maneira como o cineasta nos apresenta a metáfora dos extraterrestres como indesejados habitantes das favelas de Joanesburgo não seria mais explícita e renitente no programa dos Teletubbies.
Basta irmos até Romero e Verhoeven, mestres na inserção de comentários sócio-políticos em filmes vagabundões, para perceber o que falta em Blomkamp: ironia. Quer dizer, ela até existe, mas é ainda mais explícita.
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Wellington Sari
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21:03:00
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13 de outubro de 2009
Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino
É difícil racionalizar, mas, incrível como a experiência que se tem diante de Bastardos Inglórios é a de estar em contato com um filme de cinema de verdade. Passados os créditos iniciais – eles existem, ao contrário do que acontece em boa parte dos longas-metragens ocidentais dos dias de hoje, em que, muitas vezes, sequer o nome da obra aparece, quanto menos o crédito da equipe; uma estratégia para se “ganhar tempo” –, o primeiro capítulo e o recado, como sempre em Tarantino (toda sua filmografia é marcada por deixar as coisas claras logo de início), está dado: isso aqui é o fruto de uma paixão racional. O cineasta ama o cinema do passado e o devolve para tela não sem antes passar por um enorme filtro.
Como sempre, outra vez, o resultado final passa longe das influências iniciais – Os 12 Condenados, o Inglorious Bastards, de Enzo G. Castellari -, das faíscas que fazem acender a vontade do diretor em começar um novo projeto.
O diretor, quando se faz valer de uma mise en scène "simples", é brilhante – vide a primeira cena. Quando se apropria de Leone e Peckinpah – a morte de Shosanna (Mélanie Laurent) – e de De Palma – troquem-se os nazistas fugindo das chamas por estudantes de ensino médio e o cinema por um ginásio e se tem Carrie, a Estranha – é tão brilhante quanto.
O filme, é claro, só poderia terminar de uma forma: Aldo Raine (Brad Pitt), olhando para câmera (o plano é parecidíssimo com o da foto que ilustra o post), dizendo: “acho que essa é minha obra-prima”. Ao lado de À Prova de Morte, sem dúvidas.
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Wellington Sari
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23:07:00
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30 de setembro de 2009
Terror na Antártida, de Dominc Sena
Chega a impressionar a falta de capacidade em narrar, demonstrada por Dominic Sena. Pouco se pode esperar destes longas hollywoodianos dirigidos por funcionários inexpressivos. Apenas que sejam competentes na execução do storytelling. Terror na Antártica está longe disso.
Fica evidenciado já no prólogo: dentro de um avião, russos atiram uns nos outros, chacoalhando em um avião com uma das hélices avariadas, mostrados por uma câmera que trepida para disfarçar a falta de habilidade do diretor. Quase nada se entende do que está acontecendo, graças a uma decupagem desastrada. Quando a cena atinge o que seria o ápice de tensão, é impossível distinguir quem é quem.
O argumento de Terror na Antártica é muito simples: assassinatos ocorrem em uma base de pesquisa científica no meio do gelo. Uma agente federal com passado obscuro (Kate Beckinsale) investiga o caso. A confusão que se segue ao prólogo – principalmente nos momentos que sucedem a descoberta do primeiro cadáver - não é uma questão de condução do entendimento do público acerca da trama (como em Shyamalan), e sim, mau uso das ferramentas disponíveis a um diretor de cinema para se contar uma história. Flashbacks que se repetem e mostram basicamente a mesma coisa, diálogos que ratificam a imagem (vemos um plano de detalhe de vários diamantes e, logo em seguida, surge um personagem que diz “são diamantes”): apenas dois exemplos entre tantos outros possíveis.
E o problema mais grave é que o filme se passa todo na neve e, em nenhum momento, nos faz sentir frio. Qualquer episódio de Arquivo X situado no mesmo cenário o faz com uma mão nas costas.
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Wellington Sari
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10:51:00
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24 de setembro de 2009
Pequenos Invasores, de John Schultz
Para além citação em diálogos – em determinada cena, um guri diz: “Uau, igual ao jogo Halo!” o outro responde: “cara, não é como X-Box! isso é real, é como o Wii”, numa curiosa analogia que diz muito sobre as crianças pixelizadas de hoje – ou da referência visual mais simplista – um dos jovens do diálogo anterior usa uma camiseta do jogo Grand Prix, do Atari -, Pequenos Invasores traduz aspectos dos videogames em elementos dramáticos e estéticos.
O mais óbvio, não menos interessante, é o controle: os diminutos alienígenas, que atrapalham as férias de verão da família Pearson e parentes, com planos de dominar o mundo, possuem uma arma capaz de transformar as vítimas em bonecos que obedecem aos comandos de um joystick.
Não há dúvidas de que é um interessante achado cômico. Possibilita diversas piadas em que o corpo funciona de acordo com as leis físicas dos games menos “realistas”. Em uma das cenas, Ricky (Robert Hoffman), namorado da filha de Stuart Pearson, e Rose, a avó (Doris Roberts) transformados em avatares de um dos alienígenas e de Lee (Regan Young), respectivamente, lutam à maneira dos personagens de Street Fighter. Controle à mão, Lee executa comandos que resultam em shoryukens e voadoras.
Se até pouco tempo o humor físico dos filmes infantis hollywoodianos derivava dos desenhos animados – com Esqueceram de Mim dando o pontapé inicial - Pequenos Invasores está aí como um sintoma e um indicativo de que tal estética dificilmente voltará à tona tão cedo. Apesar de haver no longa algumas piadas de “caretas” que remetem a algum lugar entre o filme de Chris Columbus e qualquer coisa feita por Jim Carrey nos anos 90, não parece que Schultz olhe para trás.
Os bonequinhos extraterrestres, feitos em CGI, têm o aspecto, é claro, de bonequinhos controláveis de algum jogo do Playstation 3 ou concorrentes, o que deixa ainda mais evidente a sensação de que se está assistindo um filme sobre videogames.
O (involuntariamente) engraçado é que Pequenos Invasores acredita que o ápice de felicidade provém da família reunida em uma pescaria, idéia satirizada por John Hughes já em Clube dos Cinco. Passam-se os anos, mudam-se as tecnologias e suas relações com o cinema, mas o bom e velho conservadorismo norte-americano raramente é subvertido. Nos filmes infantis.
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Wellington Sari
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23:50:00
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4 de setembro de 2009
Arraste-me Para o Inferno, de Sam Raimi

Só se pode ousar jogar as regras do jogo os que têm competência e/ou talento para cumpri-las. Cláudio Torres (A Mulher Invisível) e José Alvarenga Jr. (Os Normais 2) não possuem tais qualidades e seus filmes são provas que não deixam qualquer dúvida sobre a incompetência dos diretores – oquei, o primeiro teve enorme público, mas, isto não deveria ser o principal parâmetro de qualidade de um produto.
O único motivo para se falar nestes filmes em um texto sobre Araste-me Para o Inferno é que a disparidade entre os longas brasileiros e o de Sam Raimi é tão grande, que dá vontade de adotar a postura - que a crítica jamais deveria tomar para si - de apontar o certo e o errado, mostrar o que presta e o que não presta, indicar o que deve ser visto e o que não deve.
Talvez seja mesmo injusto colocar lado a lado estes produtos cuja única frágil semelhança está na adesão dos três ao cinema de gênero (sendo que nem são do mesmo gênero). Que seja. Às vezes (só às vezes) vale mais a irracionalidade do calor da hora do que a reflexão que leva ao tom mais lúcido.
A Mulher Invisível e Os Normais 2 – são exemplos representativos, poderíamos escolher vários outros – são mentirosos. Prometem riso e sacanagem e não cumprem. Dizem conhecer as regras, mas se mostram inábeis em segui-las. Arraste-me Para o Inferno deveria, portanto, soterrar os filmes de Torres e Alvarenga Jr.
Alguns dirão que seguir as regras significa passar pelo já visto, pelo típico. Raimi, assim como os outros dois cineastas, só lida com os clichês: a velha bruxa, a maldição antiga, o objeto assustador, o médium, o gato, a cena de chuva no cemitério etc. Um possível leitor que não tenha visto o filme só pode esperar que a junção disso tudo só pode resultar em um grande...clichê. Enquanto se está no nível das palavras, da linguagem, do remeter a algo, é isso mesmo. Mas um filme não é feito de palavras. Um filme não é uma linguagem.
As imagens – e o som, é claro – é que fazem do gasto, algo novo. O domínio da mise en scène – a protagonista fugindo, escada acima, da entidade que a persegue, se escondendo no quarto e sendo ameaçada pela sombra do “demônio” é um primor – é o que faz o cineasta provocar sustos – e, conseqüentemente, estar de acordo com as regras do jogo – utilizando um lenço. O objeto amaldiçoado, enquanto palavra, é só um clichê. Transformado em imagem – flutuando pela tela, etéreo, e, por isso mesmo, assustador – é a evidência de que para o diretor talentoso, jogar pelas regras só significa fazer um filme cheio de clichês quando se fica preso à palavra e ao discurso pré-estabelecido (“a noite mais louca de todas”, no cartaz de Os Normais 2. Onde estão as imagens disso?).
O problema é que A Mulher Invisível e Os Normais 2 não são nem filmes de gênero e, muito menos, filmes. O problema maior é utilizar Arraste-me Para o Inferno para ajudar a mostrar as deficiências dos dois longas brasileiros. É uma baita injustiça com Raimi. É um tipo de abordagem crítica que não me interessa.
Filmes bobos ficam na cabeça e nos fazem cometer bobagens. Isto não irá se repetir.
1 de setembro de 2009
Se Beber, Não Case, de Todd Phillips

Um dos melhores filmes lançados nos cinemas esse ano, Eu Te Amo, Cara, de John Hamburger, é uma comédia em ode à amizade masculina, onde os clichês da estrutura da comédia romântica aparecem na busca do personagem de Paul Rudd por um padrinho de casamento e amigo seu. É um filme que defende o prazer de ir a um bom show de rock ou de simplesmente passar uma noite bebendo e conversando com um amigo. Agora a comédia da vez é Se Beber, Não Case, que muito mais do que sobre se ter amigos, é um filme em defesa à bebedeira. Logo depois de acordarem de uma noite da qual não se lembram, um personagem pergunta “Por que a gente não se lembra de absolutamente nada do que aconteceu ontem a noite?”, e a resposta vem pronta na boca de outro personagem “Obviamente porque a gente se divertiu muito”. É o que importa.
Fica difícil falar de Se Beber, Não Case, sem mencionar uma certa tendência atual da comédia americana, capitaneada especialmente pelo nome de Judd Apatow (que tem em Ligeiramente Grávidos seu grande filme), de vangloriar a amizade entre homens e de mostrar personagens adultos agindo como adolescentes, ou pelo menos defender o direito desses adultos de conservar certas atitudes adolescentes em meio a uma necessidade natural de se crescer.
Phil, Stu e Doug são personagens com compromissos e com mulheres (um casado, um prestes a se casar, e outro prestes a propôr), o casamento e o trabalho são vistos pelo filme como consequência natural da vida adulta, e a ida a Las Vegas para uma despedida de solteiro regada a álcool é uma espécie de catarse em meio à essa monotonia. Uma fuga, um respiro, uma necessidade de viver mais. Interessante ver também a forma como o sogro de Doug defende essa viagem do futuro genro. “O que acontece em Vegas, fica em Vegas” é uma frase repetida por ele. Um certo código é seguido e respeitado por homens, de diferentes gerações. Há ainda Alan, personagem que mais rende risadas, um tipo meio bobo, que vai a Las Vegas não para extravasar, mas porque vê nesses três a oportunidade de finalmente ter amigos. Afinal, loucura sem companhia não diverte ninguém.
Cara, Cadê Meu Carro utilizava de uma premissa parecida para ir longe no fantástico e criar uma trama tão estúpida quanto seus dois protagonistas (e isso é um elogio ao filme), Se Beber, Não Case também vai longe, mas prefere apostar no absurdo. O início da bebedeira no terraço é seguido do despertar no dia seguinte, com uma suíte completamente bagunçada, um bebê, um tigre, uma galinha, e uma viatura de polícia os esperando em frente ao hotel. Mais tarde chegaremos ainda a Mike Tyson cantando Phil Collins e um japônes meio ninja meio gay (este talvez o único elemento em que Todd Phillips exagera demais na busca pelo riso).
Apesar de ser Alan o mais simpático dos personagens e Phil o mais sensato, é em Stu que parece se encontrar a base de tudo o que Phillips pretende dizer. Um cara certinho até demais, submisso à sua namorada, e que bêbado demonstra ser um dos caras mais loucos que qualquer um já conheceu. A bebedeira o faz perder um dente, casar com Heather Graham e, na volta, largar sua namorada chata que havia transado com um barman num transatlântico anos atrás. Tudo porque a moral aqui é a de que, apesar de tudo, beber e se divertir faz bem.
Qual a boa hoje?
por
Christopher Faust
às
12:43:00
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29 de agosto de 2009
A Teta Assustada, de Clauda Llosa

World Cinema detected.
Um mero filme genérico de festival de cinema. Pense em Berlim, Roterdã, Veneza, Un Certain Regard em Cannes, e teremos vários filmes pretensamente artísticos muito parecidos, em obras que seriam iguais feitos na Ásia, na América Latina ou em algum país do leste europeu. Até mesmo a inserção de algum elemento mais regional como os casamentos bizarros recorrentes ao longo da projeção encontra um similar em, por exemplo, Ping Pong da Mongólia, horroroso filme mongol lançado nos cinemas brasileiros em 2007 que leva a sério uma premissa já muito bem desenvolvida em Os Deuses Devem Estar Loucos.
Talvez mais interessante do que pensar sobre este filme de metáforas fáceis, seja observar o tipo de “filme de arte” que vem sendo lançado nos cinemas brasileiros, e que, em Curitiba, entopem as salas do Unibanco Arteplex e do Cineplex Batel. São filmes que chegam por respaldo de algum festival ou um exemplar do cinema de bom gosto europeu. Nada explica, por exemplo, o lançamento de A Onda ou Grupo Baader Meinhof em detrimento de outras obras de muito maior interesse. De vez em quando, surgem grandes propostas de cinema como Entre os Muros da Escola e Vocês, os Vivos, mas o padrão é que os cinéfilos se contentem com um Hà Tanto Tempo que Te Amo ou este peruano vencedor de Berlim. Pra quê estes filmes? Por que estes filmes? Me parecem existir só para servir a um nicho de mercado. São filmes puramente comerciais.
Ver A Teta Assustada me faz pensar que Cinemark e UCI não são tão ruins assim, e Exterminador do Futuro 3 ou Brüno, apesar de seus problemas, tem muito mais cinema a oferecer do que estes genéricos de festivais. E se G.I. Joe, dirigido pelo sub-Michael Bay Stephen Sommers, é entupido de travellings em direção aos personagens antes ou após falas importantes, há em A Teta Assustada a versão “arte” destes travellings, poéticos e mais lentos, indo da velha até a protagonista no plano inicial ou apenas com essa personagem principal inexpressiva (outro clichê dos “filmes de festival”) se olhando em frente a um espelho. Dois filmes igualmente bobos, que com estes movimentos conseguem a proeza de dizer nada. Se há vida inteligente em cartaz hoje em Curitiba, ela está em Se Beber, Não Case e em Arraste-me Para o Inferno. Mas estes são próximos textos.
por
Christopher Faust
às
08:34:00
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Marcadores: Claudia Llosa
26 de agosto de 2009
A Vida Secreta das Abelhas, de Gina Prince-Bythewood

Os primeiros planos do filme são de dar medo: câmera na mão, fazendo passagens de foco, ora enquadrando por entre uma porta, ora objetos em close – uma arma e uma bola de gude -, que, levam a crer, ganharão importância simbólica durante todo o resto da narrativa. Ou seja, parece que teremos mais um filme típico da marca Fox Searchlight (poderia ser Paramount Vintage, Focus Features, tanto faz).
Por sorte, ao decorrer do longa tal impressão vai se desfazendo. A Vida Secreta das Abelhas é bem menos afetado e muito mais sereno do que seu início sugere. Aquelas marcas que se repetem infinitamente em filmes que se pretendem “sensíveis” – a música minimalista ou o folk, os desfoques, os planos detalhe com câmera na mão – são aqui deixadas de lado. Não que Gina Prince-Bythewood não demonstre querer fazer uma obra “sensível” – caso contrário a logo da Fox Searchlight não estária no início dos créditos. Mas, para chegar a tal qualidade, a diretora se vale de outros meios, como os atores, a luz e a montagem.
Disse “ os atores”. Para ser mais específico, troco por “Dakota Fenning”. Não há dúvidas de que ela é uma ótima atriz e também não há dúvidas de que têm olhos muito bonitos e expressivos. A jovem não precisa de muito esforço para nos causar simpatia.
Gina parece ter conciência de que toda meiguice de seu filme pode provir de Dakota, e não do uso de determinada lente, da escolha de certa música fofinha. Por iso mesmo ela busca gestos da atriz que não necessariamente tem um significado dramático: em uma cena de diálogo, filmado em plano/contraplano, apos terminada a conversa, a cineasta se demora um tempinho a mais na jovem, até ela passar a mão no cabelo.
Pequenos gestos e a personagem de Dakota em si parecem interessar mais do que as questões que, teoricamente, seriam as de maior relevância.
A questão da segregação - o filme se passa na Carolina do Sul, nos anos 60 -, apesar provocar movimentos da dramaturgia, é tratada de forma bastante leve (obviamente existem incontáveis filmes em que observamos os dramas intimos se desenrolarem em um contexto social efervescente, mas são poucos os que dão conta da tal leveza). Disto resulta um dos maiores méritos de A Vida Secreta das Abelhas que é não ser um filme sobre negros e brancos, mas sobre pessoas, banhadas pela luz dourada do sol do fim de tarde.
por
Wellington Sari
às
17:35:00
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Marcadores: Gina Prince-Bythewood
25 de agosto de 2009
A Pedra Mágica, de Robert Rodriguez

Se existe algum mérito no cinema infanto juvenil produzido nesta década é o de que aí se encontra , talvez, o grande refúgio da ficção. Nestes filmes – pensemos na série Harry Potter e em A Pedra Mágica – há um entrega plena à “história inventada”. E tudo é filmado de maneira a não disfarçar tal escolha (caminho contrário de um [Rec], por exemplo, que utiliza a estética da videoreportagem para tentar acrescentar “realismo” à uma velha história de monstros atacando pessoas em um lugar fechado).
O fato de a maioria dos longas feitos para crianças e adolescentes, tratarem, de alguma forma, do mundo mágico, não é questão preponderante para que eu os esteja considerando o “grande refúgio da ficção”. A questão, que além de estar ligada a recusa do “baseado em fatos reais”, à câmera tremida, ao uso de não atores, perpassa também a conhecida divisão feita por Bazin: tais filmes não acreditam na realidade, mas na imaginação.
Rodriguez não só acredita na imaginação. Acredita em outros filmes e em outras narrativas já muito difundidas. Uma breve sinopse de A Pedra Mágica não deixa dúvidas: uma pedra cai do céu em um subúrbio, dando a oportunidade de quem a segurar fazer qualquer desejo.
Já vimos muitas vezes tal premissa. E, para além das típicas citações explícitas do diretor – uma, em especial, a Scarface, de Brian De Palma, poderia ser muito engraçada, se não estivesse dublada – conseguimos assistir por baixo de A Pedra Mágica diversos outros filmes.
Temos O Milagre Veio do Espaço, de Matthew Robbins, quando um dos personagens deseja possuir vários amiguinhos e recebe a visita de pequenos extraterrestres pilotando pequenos discos voadores; Os Caça – Fantasmas, de Ivan Reitman, quando, em determinado momento da trama William H. Macy luta contra uma gosma gigante, usando uma arma parecida com as utilizadas no filme dos anos 80; Olha Quem Está Falando Também, de Amy Heckerling, quando uma bebezinha, graças à pedra, começa a falar em voice over com os outros personagens.
Obviamente, é muito provável que o público para quem foi feito A Pedra Mágica não conheça ou não enxergue estes filmes. Isso pouco importa, afinal, Rodriguez não os utiliza com nenhum propósito além da reciclagem. Conhecer as referências é, portanto, algo completamente dispensável.
O diálogo com as crianças deste século se dá por meio da escolha da estrutura do longa, que é fragmentada e que, literalmente, avança as “partes chatas”, pelas aproximações diversas com o mundo dos videogames (além de aparecerem bastante em quadro, em certo momento um personagem diz “se isso aqui fosse um videogame, o que você iria fazer?”), pela caracterização dos pais de um dos personagens como workaholics e viciados em tecnologia etc.
Fica claro que não é pelo fato de Rodriguez não narrar uma história baseada em fatos reais que a “realidade” não permeie A Pedra Mágica. Ela está lá, mas sempre submissa às necessidades do drama.
No entanto, não é só porque o longa é um mergulho na ficção que ele tenha grande valor. No fim das contas e paradoxalmente, é tudo meio óbvio demais, tudo muito pouco inventivo.
por
Wellington Sari
às
00:51:00
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Marcadores: Robert Rodriguez



















